Riscos da variabilidade climática para a produção de energia (Artigo 3 de 3)

A história tem mostrado que o clima é um condicionante fundamental no desenvolvimento da população em diferentes partes do globo. Mesmo considerando o avanço da tecnologia no último século, a variabilidade climática pode produzir impactos significativos no desenvolvimento dos países e comprometer a sustentabilidade das populações.

Como mostramos na semana passada, existem poucas séries com período superior a 80 anos e somente nas últimas décadas as séries são mais longas, evidenciando as características interdecadais dos processos climáticos e hidrológicos. Existem séries de variáveis climáticas, como temperatura, obtidas por correlação com amostras de gelo ou de precipitação, estimadas com base nos anéis de árvores (dendrohidrologia). São informações indiretas, no entanto, que permitem apenas uma ideia do comportamento.

Quando as séries mostram períodos longos acima ou abaixo da média, este tipo de comportamento observado pelos hidrólogos ao longo do tempo é denominado como o efeito de José e Noé. No entanto, não tem sido observado se existem ciclos de maior longo prazo porque a maioria das séries não são suficientemente longas.

A variabilidade climática afeta em maior ou menor grau todos os usos dos recursos hídricos e a conservação ambiental associada. Na história das civilizações, é comum a identificação do movimento e sustentabilidade de povos em função da disponibilidade hídrica ou combinações de fatores físicos de clima, solo, água e outros. As frequentes secas que ocorrem no Nordeste explicam muito da história desta região do país, inclusive a migração da população atingida para outras partes do país.

Desde 1970, as regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste apresentaram vazão média da ordem de 30% maior que a do período anterior. Este aumento de vazão contribuiu com benefícios e problemas na gestão de recursos hídricos.

O sistema de produção elétrica brasileira é fortemente dependente do clima. No final do século passado, o país investiu menos do que a demanda em novas usinas e chegou no início do século atual com racionamento de energia, mesmo com o aumento da energia assegurada no período devido ao citado aumento da vazão. Caso não tivesse ocorrido o aumento de vazão, o racionamento teria ocorrido antes.

Nos últimos anos, podem-se identificar os potenciais riscos para este sistema de produção de energia elétrica:

  • Diminuição das vazões para um novo ciclo de longo prazo de variabilidade climática, reduzindo as vazões médias e a energia assegurada;
  • Perda de capacidade de regularização, já que a maioria dos novos reservatórios não possui volume, são reservatórios a fio d’água como os do Madeira e do Xingu ou de queda, com pequeno volume de regularização na cascata.

Estas condições têm diminuído a relação Volume/MW instalado, tornando o sistema sujeito a maiores efeitos de uma estiagem prolongada, principalmente no rio Paraná, onde estão a maioria das usinas com capacidade instalada. Este sistema depende muito da variabilidade climática e está sujeito aos seus riscos, mesmo com as usinas térmicas, que se mantêm desligadas como um seguro para um tempo de poucas vazões.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

One Comment

  1. Edgar Trierweiler

    Professor Tucci.
    Já me fiz essa pergunta muitas vezes. Perda de capacidade de regularização, já que a maioria dos novos reservatórios não possui volume, são reservatórios a fio d´água como os do Madeira e do Xingu levaria a aumentar o uso de fontes térmicas de geração durante os períodos de seca. Ficou pensando se os ditos ecologistas, que condenam os grandes reservatórios de regularização por apresentarem áreas inundadas maiores e consequentemente mais impacto ambiental não estariam fazendo considerações erradas? Alguém faz (ou sabe fazer) essa conta?

    Isto indica uma falta de Avaliação Ambiental e setorial integrada.

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