Efeitos da seca no Centro-oeste

A seca dos últimos anos no Centro–oeste, parte do Sudeste, Norte e Nordeste não é um processo recente e mostra características de variabilidade natural, mas pode ter componentes de mudança climática. Em parte destas regiões, como os rios Tocantins, São Francisco, entre outros (região acima de uma latitude no Brasil) nota-se um período de desde 1991 de prolongada média móvel abaixo da média. Isto caracteriza um período interdecadal abaixo da média. A seca se mostrou dramática no São Francisco e no Centro-oeste nos últimos anos entre 2014 a 2016.

O Centro-oeste possui grande regularidade natural subterrânea devido ao aquífero que naturalmente mantém a vazão no período longo sem chuva, de maio a setembro. Exemplificando, no Centro-oeste, a relação entre a Q95 e a vazão média é da ordem de 0,35 (a mínima é 35% da média) e no Planalto do Rio Grande do Sul, onde existe basalto, a relação é 0,15.

Um aquífero depende da sua capacidade de armazenamento e um prolongado período de precipitações ligeiramente menor pode afetar esta regualrização. É como um reeservatório que se esvazia pouco a pouco. Este efeito depende deste volume de regularização. Nos rios de cabeceira, este volume é menor e a queda ocorre mais rápido.  Portanto, na medida que a precipitação acumulada se reduz com o tempo, como vem acontecendo, o aquífero vai perdendo volume e se mantém ano após ano no patamar menor.

Analisando a bacia Montevidiu (área de 1020 km2 e na cabeceira do rio dos Bois, em Goiás), com dados desde de 1974, observa-se uma queda da vazão média após 2010. Isto também ocorre em postos a jusante, mas numa magnitude menor em função do reservatório subterrâneo. As chuvas não parecem mostrar um menor desvio padrão. Isto pode ser esperado porque o efeito de pequena redução de chuva pode representar um maior efeito na vazão, devido à redução da evapotranspiração. Isto produz o que se chama de elasticidade da vazão (aumento ou redução proporcionalmente maior da vazão em relação a chuva).

A principal hipótese é a redução gradual do armazenamento subterrâneo. No período de maio a setembro, a vazão é basicamente subterrânea na bacia. Sabe-se que existe uma correlação alta entre o armazenamento e a vazão subterrânea na forma de uma potência. Para analisar esta tendência determinou-se a média anual das vazões dos meses de maio a setembro (apenas vazão subterrânea) e analisou-se a sua média móvel de 5 anos. A figura abaixo mostra claramente que estes valores que representam indiretamente o armazenamento apresentam uma tendência desde os anos 90 de mudança de patamar e redução significativa depois de 2010, respondendo a esta hipótese. Provavelmente em bacias maiores na região, este efeito deve ser diferente devido ao tamanho do aquífero. O problema maior é saber quanto tempo será necessário para o rio retornar as vazões de antes de 2010 e mesmo da década de 80. O benefício da alta regularização sazonal (dentro do ano) está pagando seu preço de admitirmos uma disponibilidade que poderá demorar para voltar aos padrões anteriores.

Figura: Variabilidade da vazão média de estiagem em Montevidiu, retratando o armazenamento do aquífero.

Para avaliar estas condições de forma consistente, é necessário simular o comportamento desta parte do ciclo hidrológico e examinar com precipitações prováveis quanto tempo será necessário com um clima de variabilidade interanual com chuvas superiores para retornar ao padrão de disponibilidade hídrica. Este novo padrão de comportamento da disponibilidade na região deve afetar a outorga do uso da água que deve ser mais dinâmica.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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