Urbanização e drenagem urbana

Neste blog já mencionamos em vários artigos, o efeito do aumento da vazão máxima e dos volumes de escoamento superficial devido a impermeabilização das superfícies e a aceleração do escoamento por sarjetas, condutos e canais. Os principais indicadores de drenagem são a área impermeável e o tempo de concentração de uma bacia. O tempo de concentração é o tempo de deslocamento da água, do extremo de montante até a sua saída na bacia. O tempo de concentração se altera em função da parcela urbanizada da bacia.
Quando a cidade já está ocupada, não há muito mais o que se possa se fazer, além de controlar os impactos já existentes, mas numa área em expansão é necessário integrar os indicadores de planejamento urbano com o os de drenagem, para que o planejamento do espaço considere o efeito sobre a drenagem.
Os espaços urbanos são construídos para serem centros de moradia, comércio e indústria. Portanto, as áreas urbanas são classificadas quanto ao seu uso nestes componentes, no entanto, na sua grande maioria as áreas são residenciais. O principal indicador de planejamento urbano é a densidade habitacional de uma área. A relação entre a densidade habitacional e a área impermeável permite estabelecer a desejada relação entre o planejamento urbano e a drenagem. Até porque, o tempo de concentração também pode ser estimado pela área impermeável.
Em 1985, quando estávamos determinando a vazão de projeto para o cenário de 2005 em São Paulo para ampliação da calha do Tietê, analisamos 11 bacias hidrográficas de São Paulo e estimamos uma equação de correlação múltipla relacionando área impermeável e faixas de densidade habitacional destas bacias. Os valores de área impermeável foram indiretamente obtidos por ajuste de um modelo hidrológico aos dados das 11 bacias. Neste mesmo período tínhamos dados medidos de Porto Alegre da bacia do arroio Dilúvio, onde por ortofotos determinamos as áreas impermeáveis, que foi correlacionada com a densidade habitacional. Quando combinamos os dados das duas cidades vimos que havia uma mesma tendência. Na seqüência foi feita uma pesquisa no IPH pelo Nestor Campana utilizando imagens de Curitiba, Porto Alegre e São Paulo. Com estas informações obteve-se uma curva única assíntota para densidade da ordem de 120 hab/hectar, quando começa a verticalização (Campana, N. Tucci, C. 1994 Estimativa de área impermeável de macrobacias urbanas, RBE Caderno de Recursos Hídricos V12 n.2 p19-94.)
Esta equação não pode ser utilizada em qualquer lugar porque pode ter distorções em áreas pequenas ( < 2 km2), pode sofrer influência de relevo acidentado, das características específicas de urbanização. Por exemplo, número de pessoas por unidade habitacional, número médio de unidades habitacionais por edifício, proporção de áreas verdes na região, etc. Comparando esta relação com outras de cidades americanas (figura 1 abaixo), pode-se observar o seguinte: (a) para a mesma área impermeável existe maior densidade habitacional no Brasil, o que indica que temos a tendência de compactar mais as cidades; (b) as cidades americanas investem na infra-estrutura e depois gradualmente inicia-se a ocupação, já que densidade zero, já existe de 15 a 25 % de áreas impermeáveis, representados pela infra-estrutura das áreas públicas. A relação entre estes indicadores é importante para permitir a interação entre o planejamento urbano e o planejamento da drenagem urbana dentro da gestão integrada da expansão urbana das cidades. Portanto, o aprimoramento da metodologia que relaciona estes indicadores é necessário para a busca de uma cidade sustentável. [photopress:aixensidade.JPG,full,pp_image] figura relação entre densidade habitacional e área impermeável

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

3 Comments

  1. Érico Leiva

    Bom, primeiro gostaria de parabenizá-lo pela clareza com que nos ilumina em suas publicações a respeito do assunto drenagem urbana.
    Trabalho com licenciamento ambiental no MS, especificamente com obras públicas de drenagem e vejo como a realidade das prefeituras estão longes de um projeto ideal de drenagem urbana.
    Porém, o que me traz ao seu blog é o assunto aproveitamento da energia hidráulica x meio ambiente.
    gostaria de saber se vc tem algo publicado e como posso encontrar e, em caso, de outras indicações sobre outros autores.
    Muito obrigado e parabéns pelo trabalho.

  2. Souza

    Bom dia, eu sou CADista da prefeitura e estamos passando por um período de padronização. E eu gostaria de saber se você não possui um desenho em AutoCAD de Drenagem e Urbanização para que eu possa usar como modelo para essas padronizações e pudesse me enviar por email. As mesmas são na parte dos selos dos desenhos e nos Layers utilizados para definir nomenclaturas, espessuras de linhas de Urbanizações, Drenagem profunda, Espinhas, BL’s, PV’s etc. Se você puder me ajudar nisso, já estaríamos meio caminho andado.
    Obrigado!

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