Temporada de inundações e escorregamentos

Chamou a atenção de toda a população os impactos em mortes e desabrigados dos eventos da Serra do Estado do Rio de Janeiro, com muita informação boa e desencontrada em diferentes meios de comunicação. Normalmente o número de casos com mortes ocorrem em escorregamentos de encostas e com as chamadas ¨flash floods¨, que são inundações rápidas que pegam as pessoas desprevenidas e ocorrem devido chuvas intensas em regiões de grande declividade. As inundações tradicionais em regiões de planícies tendem a produzir um número menor de mortes, mas com muitos danos materiais. Portanto, existe uma confusão quando comparam as inundações na Austrália e na Serra do Rio, já que lá ocorreram inundações em planícies e cidades onde a parte de escorregamento não é tão significativa e, portanto tiveram mais mortes e não necessariamente pela prevenção. A prevenção reduz as mortes, mas não nas proporções das diferenças observadas. No mesmo período em outras partes do Brasil como em Minas Gerais também houveram inundações que impactaram grande parte das cidades e o número de mortes foi pequeno. Segundo o noticiário desde outubro morreram 16 pessoas.

Nas cenas observadas na televisão chamou a atenção o número de residências construídas dentro dos rios, ocupando toda a margem do rio de forma ilegal. Sabemos que isto é realizado sem que os municípios fiscalizem. Lamentavelmente a natureza cobrou o seu preço. Também observei que existem pontes construídas fechando os rios. Costumo mencionar que para identificar os locais de inundações numa cidade, verifique primeiro as pontes, pois são as principais obras públicas causadoras de inundações localizadas. Parece que nossos colegas de estruturas não assistiram aulas de Hidrologia!!

A combinação de ocupação irregular e mesmo regulares em áreas de risco, com prolongada chuva seguida por um evento de grande intensidade (cerca de 180 mm em pouco tempo, não tenho os detalhes) foi a combinada causa das mortes. Em 1999 na costa da Venezuela morreram da ordem de 25 mil pessoas em situação semelhante de alta precipitação, grande declividade e ocupação na parte inferior das encostas e nas próprias encostas.

Desastres Naturais ocorrem em diferentes partes do mundo, o número de pessoas afetadas aumentou muito no século vinte até porque a população aumentou muito desde o século passado, ocupando áreas de risco. A forma de conviver com este tipo de Desastre é buscar a prevenção para reduzir mortes e mitigar prejuízos. A prevenção envolve o planejamento e zoneamento dos espaços de riscos, proteção das áreas críticas e alerta da sua ocorrência. Os países com desastres naturais possuem instituições voltadas para este tipo de problema a nível nacional que treina a nível local as populações mais vulneráveis e desenvolve os três componentes da prevenção. Nos Estados Unidos a instituição se chama FEMA ( www.fema.gov). Os Estados Unidos possui hoje um sistema de radares em todo o país para alerta de precipitações intensas para este tipo de chuva. As emissoras de Televisão estão sempre em alerta para noticiar um evento crítico para comunidade local, ou seja, já existe uma cultura da prevenção. Não evita todas as mortes, mas acredito que reduz em muito este impacto. Exemplo, disto foi visto na comunidade rio abaixo de S. José do rio Preto (não me lembro o seu nome) que teve a iniciativa de ligar para a cidade rio acima e avisar sua comunidade por auto falante.

Portanto, o que nos falta é iniciativa nos três níveis de governo e esperamos que o único benefício da inundação, que é chamar a atenção para o problema, não se perca. Depois de algum tempo tudo é esquecido e as pessoas voltam a construir suas casas dentro dos rios e voltamos ao assunto no próximo desastre. Para que isto não ocorra o país necessita de uma instituição a nível Federal para efetivamente atuar sobre os desastres naturais, atuando na avaliação, recuperação e prevenção destes desastres com capacitação, apoio econômico, técnico e institucional a população e aos Estados e Municípios.

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About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

One Comment

  1. Fernando Dornelles

    Prof Tucci, ao meu ver uma iniciativa com intuito de criar a cultura da prevenção, seria obrigar que uma parte da verba proveninete de declarações de emergencia e calamida pública fosse para implementação de medidas preventivas. Por exemplo, o valor total necessario para reconstruir o que um evento natural destruiu repassado para o municipio deve ser acrescido de um percentual para ser gasto em medidas de prevenção, estas medidas podem ser propostas pelo municipio ou sugeridos por algum orgão governamental competente. Pode ser a compra de equipamentos de monitoramento hidrologico, campanha educativa, projeto de plano de contingencia, etc. Isoladamente os valores podem ser pequenos, mas tomando como referencia a relação de 15x entre o custo de remediação e de prevenção poderia ser uma boa iniciativa.

    A questão principal é que não existe cultura de prevenção em qualquer âmbito governamental. Portanto é necessário capacitação a nível federal pra depois se transmistir nos outros níveis. Este é um processo de médio e longo prazo. A amarração de verbas pode ser útil, mas não atende se continuar o processo político sem qualificação técnica.

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