Temporada de inundações 2010 – 2011

O noticiário desta semana mostrou inundações em vários locais como todos os anos. Muitas pessoas devem estar confusas, já que sendo um ano de La Nina tinha sido previsto um período seco em grande parte do Brasil, inclusive com previsões que o coloquei neste blog.
As previsões mostradas, chamadas de sazonais, são de valores médios mensais e não têm uma abrangência espacial detalhada. As previsões são gerais e indicam valores acima e abaixo da média em grandes áreas. Estamos no período de chuvas e de inundações que todos os anos ocorrem, variando de bacia para bacia e de ano para ano. Os locais atingidos são sempre os mais vulneráveis.
Existe a diferença de inundação natural que atinge pequenas cidades por onde o rio atravessa a cidade e as inundações que ocorrem em várias cidades de médio e grande porte como São Paulo e Belo Horizonte, onde a causa ocorre principalmente devido a ocupação urbana impermeabilizando o solo e canalizando o escoamento o mais rápido possível para jusante. Isto produz inundação porque toda a água chega ao mesmo tempo nos locais sem capacidade de escoamento.
Uma analogia pode ser feita com o tráfego, no último dia 3 viajei de Porto Alegre a Garopaba, no trecho entre Torres e Garopaba, de 200 km existem 140 km de pista dupla e cerca de 60 km com pista simples distribuída em dois trechos principais. Neste dia existiam 80 km de congestionamento e demorei 6 horas para fazer 180 km (30 km/h) porque os trechos com uma pista permitiam um fluxo limitado de carros, enquanto que nos de pista dupla era possível correr a 100 km/h. Portanto, todos se encontraram nos trecho com capacidade reduzida, parando o tráfego. Este é o efeito da canalização que aumenta a capacidade e nos trechos de baixa capacidade concentra-se toda a água e inunda. A solução de continuar a canalizar geralmente não é a mais adequada porque a capacidade deve continuar aumentando porque a bacia vai aumentando e os custos podem chegar a valores muito altos. O volume aumenta de 6 a 8 vezes e o custo de controle com canalização pode chegar a US$ 7-8 milhões/km2 de bacia, enquanto que o amortecimento é da ordem de US$ 1 a 3 milhões/km2.
No ano passado São Paulo teve mais de 40 dias consecutivo de inundações em diferentes partes da cidade. Este ano deve continuar porque a cidade está totalmente impermeabilizada e a água tem de escoar por algum lugar e chega aos locais com capacidade limitada. Além disso, é provável que os piscinões estejam subdimensionados devido ao critério hidrológico de utilizar a chuva com duração igual ao tempo de concentração da bacia, que tende a subdimensionar o volume de projeto. Quando uma cidade cresce ao nível de São Paulo, a questão não é necessariamente de vazão de projeto, mas de alocação de volume de água durante enchentes.
Este cenário deveria chamar a atenção de muitas cidades do Brasil, para evitar o que está acontecendo nas grandes cidades e buscar desenvolver o espaço urbano com menor quantidade de áreas impermeáveis, revisando o Plano Diretor. Infelizmente os Planos Diretores ainda não levam em conta as inundações e as suas causas principais. Está aí um aspecto que o governo pode fazer a diferença, ou seja, induzir as cidades a melhorar o Planejamento do uso do solo para evitar este tipo problema.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

3 Comments

  1. SOSTENES

    Olá Sr.Tucci,

    Acredito que o senhor seja Carlos E.M.Tucci, por isso escrevo neste blog.
    Estou precisando comprar urgentemente o seu livro MODELOS HIDROLÓGICOS, mas não encontro em lugar nenhum.
    Poderia me auxiliar por gentileza a encontrá-lo ?
    Obrigado,

    Sóstenes

    Entre em contato com adriana@rhama.net ou ligue para 51 30136329 (à partir da terça próxima).

  2. Rafael Vilela Gomes

    Caro Prof. Dr. Tucci, dado atual cenário de gestão desfragmentada do saneamento no Brasil, isto é, a desconexão entre: a gestão dos recursos hídricos e ambientais; a gestão do sistema de drenagem urbana; a gestão do sistema de água para consumo humano e residuárias; a gestão dos resíduos sólidos urbanos. Com efeito, observa-se a sucessão de eventos catastróficos, por exemplo, as inundações ocorridas no Estado de São Paulo, além disso, problemas críticos enfrentados pelo Estado do Rio de Janeiro. No entanto, são problemas, basicamente, observados em todo o País, em diferentes proporções. Não seria, portanto, momento propício à criação de uma Agência Nacional de Saneamento?

    Estes assuntos deveriam ser planejados de forma integrada. No entanto a nível da municipalidade com apoio de entidades estaduais e Federais. A lei de recursos hídricos menciona que um dos objetivos do Sistema de Recursos Hídricos é a gestão dos extremos, cheias e estiagens e a Agência para atuar nisto seria ANA. O Saneamento é um dos usuários dos recursos hídricos e a dificuldade de ter uma agência é que a atribuição destes serviços pela constituição é municipal e o governo federal não atuar com fiscal destes serviços, mas o município, que deveria ter sua agência. Como a gestão municipal é fragmentada (foram criados munípios em qualquer vila) não existe e criou-se a opotunidade de gestão por consórcios de serviços como ocorreu na Itália em que foram criados prestadores regionais. Portanto, temos uma salada institucional que é necessário desatar um nó. Estou trabalhando no PLano de Saneamento e Águas Pluviais da Bahia onde estão sendo previstos entidades estaduais que dê suporte aos municípios na gestão de saneamento.

    prof. Tucci

  3. Estes assuntos deveriam ser planejados de forma integrada. No entanto a nível da municipalidade com apoio de entidades estaduais e Federais. A lei de recursos hídricos menciona que um dos objetivos do Sistema de Recursos Hídricos é a gestão dos extremos, cheias e estiagens e a Agência para atuar nisto seria ANA. O Saneamento é um dos usuários dos recursos hídricos e a dificuldade de ter uma agência é que a atribuição destes serviços pela constituição é municipal e o governo federal não atuar com fiscal destes serviços, mas o município, que deveria ter sua agência. Como a gestão municipal é fragmentada (foram criados munípios em qualquer vila) não existe e criou-se a opotunidade de gestão por consórcios de serviços como ocorreu na Itália em que foram criados prestadores regionais. Portanto, temos uma salada institucional que é necessário desatar um nó. Estou trabalhando no PLano de Saneamento e Águas Pluviais da Bahia onde estão sendo previstos entidades estaduais que dê suporte aos municípios na gestão de saneamento.
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