Será a previsão da mudança climática confiável?

Uma dos principais questionamentos existentes sobre a mudança climática, devido ao acréscimo do efeito estufa pela emissão de gases, tem sido porque estas previsões se baseiam em estimativas de modelos matemáticos, que não conseguem fazer previsões confiáveis para os cenários atuais.
O clima das últimas décadas tem registrado um aumento da temperatura, parece que sobre este fato não existe muita controvérsia. O questionamento ocorre se este aumento é devido as condições naturais do globo ou devido ao aumento de gases antrópicos. O antigo relatório do IPCC de 2001 já abordava isto, mostrando com uso de modelos, que este processo é a combinação de efeitos naturais e antrópicos.
Persistem questionamentos sobre os modelos, com observações do tipo: Estes modelos não conseguem prever a chuva de forma adequada e mesmo de curto prazo, como poderiam prever de longo prazo. A resposta (veja entrevista com prof. Pedro Dias neste blog) é de que os modelos podem captar condições médias para retratar cenários futuros, sem necessidade de precisão específica.
De outro lado, os modelos utilizam atualmente para previsão o chamado “essemble de modelos”, ou seja, simula com vários modelos com estruturas diferentes e adota um valor esperado dos mesmos como uma medida da incerteza. No entanto, esta estimativa da incerteza é tendenciosa, pois mede uma incerteza relativa entre modelos e não mede a incerteza real (com base em dados observados). Para medir a incerteza real o modelo deveria ser ajustado a “dados observados”, pelo menos do período onde se conhecem estes dados.
Existem outros questionamentos como: (a) As alterações ecohidrológicas dos ambientes num sistema não-linear (como o da atmosfera-solo) podem levar o clima para outra direção; (b) A incapacidade dos modelos de representar determinados processos climáticos conhecidos em diferentes partes do globo ou de processos locais da precipitação.
A evolução científica e tecnológica tem sido muito grande nesta área, onde os computadores ficam mais rápidos e os modelos mais precisos, além de representação de processos integrados. Portanto, o conhecimento está aumentando de forma acelerada, com o investimento que está ocorrendo neste assunto. Não se poder esperar de ter respostas imediatas de problemas tão complexos.
A favor do uso dos modelos climáticos, tenho o retrospecto de um estudo que participei em 1991 financiado pela USEPA (Environment Protection Agency dos Estados Unidos) com duas universidades americanas sobre Previsão e mitigação climática de grandes bacias do mundo, uma das quais a bacia do rio Prata. Para representar a bacia do rio da Prata escolhemos a bacia do rio Uruguai. O estudo foi publicado na revista da ABRH da época e sintetizado num relatório que fiz para a ANA em 2002, que está neste site para download, (Variabilidade climática e uso do solo na bacia do rio Paraná). Recebemos as chuvas sazonais da bacia de três modelos GISS (da NASA), GFDL (NOAA) e UKMO (serviço meteorológico inglês). O melhor ajuste aos dados de chuva e temperatura foi com o modelo do GISS. Prevendo o cenário atual (década de 80) e futuro (dobrando o CO2 da época) para as vazões específicas no Alto Uruguai, obteve-se os resultados da figura abaixo. O interessante deste resultado é que mostra que ocorre uma mudança de sazonalidade. Anteriormente o período chuvoso era único no inverno e depois no cenário futuro ocorrem dois períodos chuvosos no verão e no inverno. De certa forma, isto sido observado nos últimos anos na região (faltaria comprovar com dados dos últimos anos, por sinal uma idéia para uma publicação). Isto pode ser devido às características tropicais que aumentaram com a temperatura e não existia na área. Portanto, em retrospecto, depois de 18 anos da previsão talvez os modelos possam mostrar uma capacidade de prognóstico, como advogam os usuários destes modelos. Este é um assunto que poderia ser refinado para uma melhor conclusão.

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Variação das condições de precipitação (prevista pelo modelo GISS em 1991) e as vazões específicas no Alto Uruguai (fonte: “Analysis of Potentital Climate Change in the Uruguay River Basin, por Carlos Tucci e Augusto Damiani, 1991 Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS).

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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