Secas no Rio Grando do Sul

Na semana passada mencionei o quanto a variabilidade hidrológica pode afetar a sustentabilidade de uma sociedade, principalmente quando esta sociedade não está preparada para enfrentar as condições climáticas de longo prazo. A história mostra várias civilizações que se tornaram insustentáveis ao longo do tempo devido ao clima. Recomendo o livro de Jarred Diamond, chamado Colapso que descreve sociedades ambientalmente sustentáveis e as que colapsaram pela combinação dos usos dos recursos naturais e de condições climáticas.
O Rio Grande tem uma história migratória interessante, já que a sua fronteira foi móvel por centenas de anos em função da mobilização dos colonizadores portugueses e espanhóis. O lado português foi explorado pelos Bandeirantes a caça de índios. Mas tarde já no século 19 e 20 vieram os colonos italianos e alemães, formando uma mescla cultural do seu interior. No século vinte houve uma importante migração do Gaúcho, denominação da população do Estado dentro do Brasil (como grande parte da população da planície Uruguaia e Argentina). A migração gaúcha iniciou no final da década de 40, 50 e posteriores no sentido primeiro de Santa Catarina, depois Paraná e depois para Mato Grosso e atualmente para vários Estados brasileiros e Paraguai em função da busca de fronteiras agrícolas.
Um importante componente deste processo no esteve provavelmente ligado ao clima no início deste processo, já que a população não parecia tão grande para mobilizar a migração na década de 40. Na figura abaixo é apresentada a média móvel de 10 anos da precipitação adimensional anual. A precipitação adimensional anual é o valor anual dividido pela sua média. Portanto, quando menor que 1 indica uma chuva menor que a média. A média móvel de 10 anos mostra quando esta média é também menor que a média neste período. Na figura pode-se claramente observar que na década de 40 a média móvel é a menor da série de 84 anos de 1922 a 2006 e que depois deste período a média móvel praticamente ficou na média ou acima dela. Isto indica que os anos de 1942 a 1952 (11 anos) foram muito secos. Analisando os dados verifica-se que são 11 anos consecutivos abaixo da média e, portanto com período seco importante. O segundo período mais seco foi de 1964 a 1970 de 4 anos em 5 anos abaixo da média. Depois disto entre 1978 a 1981 3 anos em 4 foram abaixo da média. De 1981 para cá, são 30 anos sem sequência de mais de dois anos consecutivos com seca, na maioria anos isolados com periodicidade de 5 a 7 anos.
Estes dados demonstram primeiro que provavelmente o processo de migração teve início devido à seca dos 40´s, um segundo período pode ter ocorrido na década de 64 a 70, mas que depois disto a região tem vivido de bonança climática com intervalo de 5 a 7 anos com um ano seco.
O sinal vermelho para a sociedade atual decorre do seguinte:
(a) A população aumentou e atualmente é de 10,5 milhões de habitantes, portanto o impacto é maior;
(b) A infraestrutura em apenas um ano seco como 2011 mostra-se insuficiente com um impacto na agricultura e mesmo abastecimento da fronteira e da região metropolitana.
(c) Esta infraestrutura provavelmente está dimensionada com base em séries tendenciosas com dados iniciando apenas na década de 70 a 80 para cá, criando um risco ainda maior.
Estes cenários críticos certamente se repetirão no futuro desconhecido com os impactos sociais e econômicos. No entanto, é de responsabilidade de uma sociedade limitar este impacto a níveis que não a levem a levem ao colapso.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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