Riscos da disponibilidade de água na produção de energia

Depois de 2001, os decisores e a população entenderam os riscos da falta de água para produção de energia. Apesar do setor elétrico brasileiro possuir da ordem de 70% de capacidade instalada hídrica para 30% térmica e outros, o setor opera geralmente da ordem de 93% com hídricas e somente o restante com as demais instalações devido a preço reduzido da geração hídrica.
O risco de falha do setor foi adotado em 5% com dois anos e meio de período crítico em função da capacidade instalada e dos volumes de regularização. No entanto, vários fatores se alteraram nos últimos anos produzindo diferentes efeitos sobre a capacidade de regularização do setor e seu efetivo risco.
No lado positivo, as vazões afluentes aos reservatórios na bacia do rio Paraná, Uruguai e Paraguai aumentaram da ordem de 30%, aumentando o fator de capacidade dos empreendimentos para o mesmo investimento. Esta questão tem sido discutida em outros artigos neste blog, onde a principal pergunta se resume em: até que ponto estes aumentos são permanentes?
No lado negativo se observou que o número de empreendimentos num período longo foi insuficiente para acompanhar a demanda, culminando no racionamento de 2001, que poderia ter acontecido antes se não houvesse o aumento das vazões.
Nos últimos anos houve um outro fator, representado pelo maior aumento da capacidade instalada sem o correspondente volume de regularização, fazendo com que diminua o período de risco e aumente a probabilidade de falha, pois existe menor volume específico para cada MW instalado (figura abaixo). Numa cascata de reservatórios geralmente existem poucos reservatórios de regularizam a vazão e vários de queda, que utilizam a mesma vazão. Como os reservatórios de regularização não são construídos por serem menos atrativos (maior custo ambiental e maiores conflitos, sem retorno equivalente) são construídos os de queda. Quando ocorrer uma estiagem toda a capacidade da cascata estará comprometida, existindo pouca ou nenhuma sinergia entre os mesmos.
Na figura abaixo se observa que a relação entre volume e capacidade instalada média subiu para cerca de 8 hm3/MW (hm3= 106 m3) nos anos 60 com a entrada de Três Marias Furnas, etc, caindo gradualmente até valores atuais de 3,5 hm3/MW. Como estes valores são médios não caracterizam cada conjunto de empreendimentos, como o reservatório equivalente de cada setor, mas permitem uma tendência geral
Portanto, as condições de risco podem passar a serem anuais, devido a baixa regularização, ficando o setor sujeito a riscos mais freqüentes, como tem sido observado nestes dois últimos anos, onde os reservatórios estavam cheios e passados alguns meses chegou-se a níveis alarmantes. Isto resultará num mercado “spot “mais volátil e arriscado para os compradores de energia.

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figura preparada por Márcio Nóbrega

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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