Risco e incerteza em hidrologia

Alguns termos são utilizados em recursos hídricos e muitas vezes as pessoas possuem pouco entendimento sobre os mesmos, principalmente quando envolvem riscos que afetam negócios, pessoas e segurança da população e do ambiente.

O risco deve ser entendido como a probabilidade que um projeto ou plano está disposto a assumir quando do seu desenvolvimento. Na sociedade moderna assumimos riscos todos os dias, como ao entrar num carro, num avião, caminhar nas ruas, na compra de imóveis e mesmo na comida que comemos.

O entendimento das consequências do risco e sua definição é um dos processos importante de qualquer projeto ou plano. Por exemplo, quando aceitamos o risco de inundação de 10 anos de tempo de retorno estamos aceitando a probabilidade de 10 % inundações neste local em qualquer ano. O tempo de retorno é igual ao inverso da probabilidade (sem percentagem). Fazendo uma analogia, a probabilidade de obter o número 3 num dado de 6 faces é 1/6 e a chance média de repetir este número é de 6 jogadas (no caso da enchente cada jogada é um ano).

A incerteza é o erro em estimar o risco e pode ser devido a coleta de dados, modelo inadequado, erro de processamento, amostra insuficiente, entre outros. Em termos estatísticos, a diferença entre as amostra e da população é a incerteza. A incerteza em estimar o risco pode comprometer os resultados e fazer com que assumamos um risco superior ao desejado. Uma das principais incertezas em hidrologia é avaliar se amostra é representativa para os eventos dentro da vida útil do projeto ou planejamento. Para isto não existe remédio quando a série é curta, mas sempre é possível buscar informações em dados de precipitação e regionais, mas nunca despreze o risco de um evento do passado. Num projeto que analisei em Uganda em 2007, existia uma série de 100 anos do Lago Vitória e parte dela foi desprezada pelo projetista. Como consequência disto a vazão disponibilizada aumentou e viabilizou a alternativa mais barata de geração hidrelétrica na barragem que existia, mas depois de alguns anos voltaram os períodos secos (como os anos antes de 1960 e desprezados na análise), fazendo com as turbinas fossem desligada e o país tivesse que usar óleo para gerar energia a US $ 250/MW, num país pobre com apenas 5% da população com energia.

A interpretação do risco em cada projeto envolve um entendimento claro do funcionamento deste projeto e o estabelecimento de medidas preventivas quando este cenário ocorrer e principalmente as consequências dos impactos. Projetos que coloquem em risco vidas humanos devem ter considerações sociais e não econômicas na análise das consequências e da prevenção.

Em Hidrologia existem vários cenários onde se deve definir um risco e desenvolver um projeto ou plano considerando fatores econômicos, sociais e de sustentabilidade. É frequente que sejam escolhidos riscos com base em tabelas de livros, sem uma avaliação adequada dos impactos envolvidos. Veja alguns exemplos a seguir:

• No projeto de abastecimento de água de uma cidade utilizou-se a condição de atendimento de abastecimento de 95%. Isto significa que foi aceito 5% de falha com base numa série histórica de vazões disponíveis. Será este risco razoável? Será que a população aceitará 5% do tempo com racionamento? Como serão as condições operacionais nestas condições?
• Um novo condomínio será construído numa área de risco de inundação. O risco de inundação é de 10 anos de atingir as casas, geralmente com duração de pelo menos 15 dias. Será aceitável para moradores que vão comprar estas casas? Uma inundação 10 anos tem risco superior a 80% de ocorrer nos próximos 10 anos. Será aceitável? Como conviver com este problema? Uso de pilotis com os bens num andar seguro? Existe alerta?

Nos estudos é importante distinguir os seguintes fatores: consequências econômicas, sociais e ambientais dos impactos, resiliência ao evento, representatividade das informações e segurança e medidas preventivas.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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