Os indicadores de saneamento não são confiáveis

Estou trabalhando num documento para o Banco Mundial de avaliação de águas urbanas. Analisando os indicadores de Saneamento a nível internacional, verifiquei que os mesmos estão desatualizados para a realidade moderna de um desenvolvimento integrado e sustentável.

Os indicadores das Nações Unidas podem ser obtido para qualquer país do mundo no site: http://www.worldbank.org/water ou em outras fontes das Nações Unidas como World Water Assessment www.unesco.org/water/wwap. Os indicadores consideram como “disposição de despejo” (waste disposal) quando o esgoto é coletado por uma rede ou disposto no solo. Desta forma a América Latina tem 84% de cobertura!!!. Qual o significado deste dado?

No Brasil as estatísticas mostram que o esgoto é coletado por rede ou disposto no solo é de 77 % (a nível urbano). Este esgoto é coletado por qualquer rede (54,27%), geralmente a rede é de pluviais (que não foi construída para isto) e parte por fossas (22,95% ). Do total coletado 28,2 % é tratado. Portanto o total da água retirada dos rios, utilizado pela população e depois tratado é de (%)

= 0,77 x 0,282*100 = 21,7%

No entanto, esta proporção ainda não retrata de forma adequada a realidade, pois do total coletado, o tratamento não retira todas as impurezas gerada pelo uso humano. Grande parte das estações de tratamento são ineficientes e mesmo as mais eficientes, com tratamento secundário, tratam no máximo 85% da carga de Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) e muito pouco de fósforo e nitrogênio. Considerando que o tratamento do total tenha uma eficiência de 70% (estou sendo bastante otimista), resulta num tratamento efetivo de

= 0,217 x 0,7 x100 = 15,2%

Portanto da água que retiramos dos rios para nosso uso e que devolvemos na forma de carga de esgoto, apenas de 15% é efetivamente tratada antes de retornar para os rios.

Retornando a questão fundamental colocada no início do artigo sobre a ineficiência dos indicadores, o Brasil aparece nos dados das Nações Unidas com uma cobertura com os 77% e a Argentina com 91%. No entanto, nos conhecemos como estão poluídos nossos rios, o que não se retratam nestas estatísticas. No entanto, são elas utilizadas para apoiar a decisão sobre os investimentos.

Estas estatísticas são desatualizadas porque se baseiam no Saneamento da fase higienista, em que a base da solução dos problemas era retirar o esgoto de perto das pessoas para evitar doenças e epidemias. Isto ocorreu principalmente na primeira parte do século vinte quando os centros urbanos eram pequenos. Já se passaram pelo menos 50 anos!! Como as cidades cresceram e o saneamento nos países em desenvolvimento tem sido realizado dentro dos princípios higienistas. O esgoto foi sendo transportado para jusante sem tratamento, contaminando os mananciais de abastecimento de água e produzindo a proliferação de doenças de veiculação hídrica. Como todos nós estamos a jusante de alguém!!, continuamos na proximidade do esgoto e estes dados não refletem a realidade. A filosofia “local” do Saneamento é completamente inadequada. Soma-se a este problema a contaminação do meio ambiente urbano, que está totalmente deteriorado. Portanto, segundo os números acima estamos recebendo 85% de subsídio ambiental, já que continuamos a depositar nossos esgotos na natureza. Será que não podemos ser processados por isto? Afinal estamos produzindo impactos em outras pessoas e na natureza. Acontece que na maioria das vezes pagamos por este serviço, mesmo quando não é realizado! Bom este é assunto para a próxima semana.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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