Os dilemas da sustentabilidade do semiárido

O semiárido cobre 10% do território brasileiro. Os condicionantes climáticos relacionados com precipitação e evapotranspiração são extremamente desfavoráveis a sustentabilidade dos usuários da água, além dos condicionantes de geologia.
A precipitação média é da ordem de 600 mm, que aparentemente não é tão pequena, considerando que em muitas cidades europeias são menores que esta. No entanto, não se pode avaliar o clima somente pela precipitação média, além de desconsiderar a evapotranspiração. A variabilidade interanual da precipitação é muito alta, com grande desvio padrão. Além disso, a evapotranspiração é alta, possuindo também alto desvio padrão.
Existe o forte efeito da elasticidade hidrológica, que é mais significativo num clima semiárido com o do Nordeste brasileiro devido a alta temperatura todo o ano. Quando um ano é de baixa pluviosidade, que envolve um número menor de dias sem chuva, a evapotranspiração potencial aumenta de forma significativa, já que em regiões quentes o dia com e sem chuva faz com que evapotranspiração varie de 3 a 5 mm para 10 a 15 mm. Isto produz a elasticidade, já que uma redução de 15% na chuva pode representar uma redução ainda maior no escoamento (pelo aumento também da evapotranspiração). O desvio padrão da vazão passa a ser ainda maior que o da precipitação. Em muitas regiões do semiárido quando a chuva anual é inferior a 400 mm a bacia praticamente não gera escoamento.
A existência de geologia com muita rocha e pouca capacidade de armazenamento é outro fator desfavorável. Um exemplo é o cristalino que predomina em grande parte do Nordeste. No Ceará 60% do Estado tem cristalino, exigindo reservação superficial, já que os rios não possuem regularização natural. O rio São Francisco na sua margem direita em parte do seu curso, principalmente na região semiárida, possui muitas formações de cristalino com baixa vazão de estiagem, enquanto na margem esquerda os aquíferos permitem alta regularização natural como o rio Carinhanha.
Neste cenário de grande desvio padrão da precipitação e vazão e geologia desfavorável utilizam-se reservatórios para regularizar a vazão. A regularização intranual é aquela que o reservatório regulariza o período seco de um ano médio, podendo secar numa sequencia de anos críticos, ou seja, quando a variabilidade climática de dois ou três anos consecutivos são baixas. Os reservatórios de regularização interanual são aqueles que têm capacidade de regularizar uma sequência de anos. Para tanto, necessitam de volume muito grande com grande tempo de residência (geralmente > 1 ano). O tempo de residência é a relação entre Volume do reservatório e sua vazão média. O dilema de um reservatório com grande tempo de residência é que o mesmo pode salinizar suas águas, justamente pela baixa renovação do seu volume.
Portanto, as dificuldades identificadas acima não indica que o semiárido é inviável, apenas que existem dificuldades na disponibilidade hídrica e na sua sustentabilidade ao longo do tempo. Isto gera oportunidades de desenvolvimento de uma gestão aprimorada do uso da água como: (a) uso eficiente e racional da água; (b) gestão eficiente do volume para minimizar a salinização por meio de uso de previsão e avaliação climática; (c) integração de sistemas hídricos que se complementam; (d) melhor entendimento dos processos climáticos e hidrológicos que apoiem a gestão. As dificuldades antes de tudo permitem o desenvolvimento do conhecimento e geram oportunidades.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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