Mudanças na relação área impermeável x densidade habitacional

Um dos desafios do Planejamento e Projeto em Drenagem Urbana tem sido determinar a área impermeável de uma área ou bacia hidrográfica.
Em 1984 quando simulamos o rio Tieté para o projeto ampliação da calha tivemos que estudar São Paulo para 2005. Naquela época desenvolvemos as primeiras relações entre área impermeável (parâmetro hidrológico) e densidade urbana (parâmetro de planejamento urbano) para determinar no futuro a área impermeável de uma determinada área (Existiam estivativas da EMPLASA para a densidade por bairros de São Paulo para 2005). Com dados de 11 bacias foi possível relacionar estas duas variáveis e fazer os prognósticos.

Depois de alguns anos, Nestor Campana na sua tese de doutorado sob a minha orientação utilizou dados de Curitiba, São Paulo e Porto Alegre e determinou uma curva assíntota em cerca de 137 hab/ha (67% de área impermeável) relacionando estas duas variáveis. No trecho entre 0 e 137 hab/ha foi utilizada uma reta onde AI (área impermeável em %)= 0,489 DH (densidade habitacional). Este estudo mostrou o seguinte: (a) existe erros importantes para áreas menores que 200 ha e com forte topografia e variada ocupação urbana; (b) as relações devem ser utilizadas para áreas representativas residenciais com algum comércio semlhante as cidades usadas na amostra. Esta relação é utilizada para prognosticar o futuro e não deve ser utilizada para o cenário atual. Para o cenário atual é possível medir a área impermeável com base em imagens de satélites.

Outros estudos mostraram que esta relação pode variar com a cidade brasileira e depende muito de um fator que é o número de pessoas por unidade habitacional, já que na medida em que este número diminui existirão menos pessoas por m2 de área impermeável. Este é um indicador importante das cidades brasileiras que tem mudado com a demografia brasileira e alterado nos últimos anos. A urbanização, a fertilidade e o número de pessoas por unidade habitacional mudou nos últimos 20 anos. Os dados utilizados no estudo de Campana, que gerou a curva é de 1990. Naquela época o número de pessoas por unidade habitacional era da ordem de 4 no Nordeste e 3,5 no Sul e Sudeste brasileiro. Atualmente estes números são respectivamente da ordem de 3,5 no Nordeste e 3,0 no Sul e Sudeste. Portanto, a curva se alterou em cerca de 10 a 15%. A questão fundamental é onde ocorre a assíntota que reflete a verticalização e como se altera a reta do restante do trecho. Considerando uma densidade habtiacional 10% menor, a relação muda e a assíntota ocorreria em 123 hab/ha e a equação passaria a ser AI = 0,544 DH.

Esta análise não considera o aumento da impermeabilização devido a intensa retirada de áreas verdes nas cidades brasileiras, o que poderia levar a assíntota para valores da ordem de 70 a 80% de áreas impermeáveis quando ocorre forte verticalização, principalmente por perda de áreas verdes dentro das propriedades privadas a medida que a cidade se transforma de área residencial para serviços.

Melhorar estas informações é um tema interessante para pesquisa, que poderia esclarecer várias destas questões, amostrando diferentes realidades das cidades brasileiras, obter maior representatividade com um conjunto maior de anostras de cidades permitindo melhorar o planejamento do desenvolvimento futuro das cidades. Os alunos que estão procurando tema de pesquisa este assunto é uma oportunidade, quem se candidata?

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

4 Comments

  1. Diego Camargo

    Boa tarde, Prof.!
    Este post caiu em boa hora, particularmente para mim, porque estava à procura de um tema para meu trabalho de conclusão de curso (monografia), o qual vou desenvolver este ano.
    Atualmente faço estágio no DAEE e pretendo ingressar em um programa de pós-graduação ano que vem, por isso estou trabalhando para publicar alguns trabalhos em anais, workshops e simpósios.
    É um tema que se encaixa bem com o que queria desenvolver, porém não tenho certeza sobre conseguir um bom orientador para ele.

    Com certeza sou um candidato!

    Abçs

  2. Douglas

    Olá professor!

    De fato é um excelente tema, eu ja estou trabalhando no meu tcc em algo bem parecido e seu texto veio bem a calhar. Ja conhecia seu blog, e sempre que mais preciso, lá está ele para me auxiliar, sou aluno da fatec-sp, curso hidráulica e saneamento ambiental, venha nos fazer uma visita e compartilhar um pouco do seu conhecimento conosco, professores e alunos ficariam muito satisfeitos com sua presença.

    Um grande abraço.

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