Inundações em Santa Catarina

Todo o Brasil viu nos últimos dias o impacto que as inundações produziram em Santa Catarina, principalmente no vale do rio Itajaí-Açu, nas cidades de Blumenau e Itajaí, além de outras na proximidade. Já morreram mais de 100 pessoas, além dos mais variados impactos materiais sobre a população de todas as classes. Este evento mostrou a grande vulnerabilidade da população da bacia do Itajaí-Açu.
No pluviômetro do INMET em Indaial (um pouco a montante de Blumenau) foi medido mais de 200m entre as 9h do dia 22/11 e as 9h do dia 24/11 (dois dias). Este total não mostra uma grande excepcionalidade, considerando as enchentes já ocorridas. Da mesma forma, a cota máxima atingida em Blumenau também não foi excepcional, pois atingiu cerca de 11,40 m na régua de Blumenau (2 m acima da cota de extravazamento do leito). Isto representa uma cheia da ordem de 10 anos de tempo de recorrência, já que a maior enchente dos últimos 156 anos foi em 1880 e atingiu 17,10 m. Mesmo em 1983 e 1984 duas recentes enchentes a cota atingiu 15,34 e 15,50m respectivamente. Portanto, a excepcionalidade não está na magnitude da cota máxima. Qual foi a principal condição crítica?
Esta região de Santa Catarina não possui uma sazonalidade definida, pois a enchente anual pode ocorrer em qualquer mês do ano. Em estudos que realizamos na região na década de 80, verificamos que a precipitação máxima mensal e o conseqüente pico da série ocorreram em todos os meses do ano ao longo da série. Observa-se que desde agosto a região tem passado por um período chuvoso intermitente, o que fez com que a umidade do solo se mantivesse permanentemente alta, com lençol freático alto e baixa taxa de infiltração. Desta forma quando um volume adicional, não excepcional, mas alto ocorreu, saturou o solo das encostas, produzindo escorregamentos generalizados nos talos de alta declividade, trazendo consigo casas e outros prédios. Esta foi a principal causa de morte. Aliás o maior número de mortes no Brasil tem ocorrido principalmente por escorregamento de encostas do que por submersão (em janeiro de 2004 morreram 84 pesoas no Brasil devido a enchentes).
Antes destas chuvas do final de novembro os rios também se encontravam cheios devido as chuvas freqüentes, com as áreas ribeirinhas já saturadas e, quando chegou esta chuva adicional, quase nada se infiltrou. Para uma bacia de cerca de 13.000 km2, com baixa infiltração e nenhuma interceptação, a chuva pode ter produzido um volume de água superficial a 1 bilhão de m3. O rio Itajaí até Blumenau é mais encaixado, enquanto que a jusante o vale é plano com grande largura e dimensão. Nesta cheia este espaço foi inundando, funcionando como um grande reservatório. Como o volume foi muito grande atingiu de forma significativa a cidade de Itajaí, que fica próxima do mar. Para cheias de pequeno volume esta área plana entre as duas cidades funciona como um grande reservatório de amortecimento de cheia, minimizando as suas cheias. No entanto, nesta inundação o volume foi muito grande atingindo de forma significativa esta cidade. O vale plano entre Blumenau e Itajaí foi formado ao longo de milhões de anos pela deposição de sedimentos de um grande número de cheias (como esta), portanto é, e será sempre uma área de risco de inundação.
Seria possível evitar estes impactos? Estes impactos poderiam ser minimizados, já que inundação deste tipo não é impossível eliminar. A própria bíblia relata o “dilúvio” e a história ao longo do tempo mostra os diferentes eventos de inundações, desde o Egito aos tempos atuais. No entanto, os próprios egípcios, cerca de 3500 atrás já sabiam que existe um preço a pagar para quem ocupa as áreas de inundações e já faziam zoneamento do espaço de risco. As inundações representam atualmente 50% das perdas e impactos dos desastres naturais a nível mundial e tem aumentado de forma significativa desde a metade do século 20.
Em 1986 num estudo que realizamos para a CPRM foi realizado mapeamento de áreas de inundações em oito cidades do Vale do Itajaí que não foi utilizado. O mapeamento é utilizado para o zoneamento urbano, direcionando a ocupação para as áreas seguras, buscando remover as pessoas destas áreas para áreas seguras, reduzindo assim os potenciais impactos. Isto também é válido para as encostas que são potenciais áreas de risco de escorregamento, além da própria intervenção de melhorar a drenagem dos talos (encostas com solo) e proteção da sua base. Para as grandes declividades deve-se remover a ocupação e preservar estas áreas.
Portanto, é possível buscar evitar parte importante das mortes e prejuízos. No Brasil, apesar da constituição mencionar que é de responsabilidade do governo federal a prevenção contra inundações e secas e a mitigação das cheias, um dos três objetivos da lei de recursos hídricos, não temos nenhum programa ou ação preventiva. Quando ocorre o evento, é declarada calamidade pública e a cidade recebe dinheiro a fundo perdido, sem necessidade de concorrência para gastar. Porque prevenir? Em algumas semanas tudo será esquecido, até a próxima enchente. Esta é uma das grandes falhas da nossa capacidade de gerenciar um dos poucos desastres naturais que temos. A gestão de recursos hídricos no Brasil necessita efetivamente de atuar sobre seus problemas. Temos muitas comissões e discussões e pouca ação, quem estamos enganando?

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

8 Comments

  1. Marllus

    O prof. Tucci mencionou a necessidade de se utilizar estudos de zoneamento para reordenar a ocupação de áreas, incluindo aí áreas sujeitas a escorregamentos. Mencionou também que a maior parte das mortes causadas foram por causa disso.

    O ministério das cidades realizou, junto com a defesa civil, estudos de planos municipais de risco. Aqui em Maceió, onde vez por outra há mortes por escorregamento de barreiras devido à chuva, este plano desennhou o mapa de risco da cidade. Alunos da Engenharia Civil daqui participaram juntamente com professores da área de geotecnia.

    Pelo que eu saiba, este estudo ainda não foi utilizado para, se for o caso, realocar pessoas. O mesmo estudo mostra que o maior número de mortes por escorregamento ocorreu em anos de chuvas mais significativas.

    é triste ver que temos já estudos e pessoal capaz de evitar, mas preferimos torcer para que nada de mal ocorra, como se “só ocorresse com os vizinhos”.

  2. Ninon Machado

    Caro Tucci
    o tema ainda não esta adequadamento incorporado à cultura da gestão das aguas. Cultura de segurança, com medidas preventivas, mitigadoras , reparadoras não sob a forma de responsabilidade unica do Estado , mas de mecanismos economicos financeiros como já existem para os impactos dos alagamentos urbanos em seguro de automóveis.Havendo maior clareza na responsabilidade pela previsibilidade dos atos, haveria outras soluções a partir desses mecanismos economicos financeiros e as soluções apontadas que existem tanto para as enchentes como para as secas não passariam mais por expedientes de liberação de recursos publicos e sua utilização sem regras licitatórias.
    Acho oportuna sua franqueza e clareza nas colocações
    cds sds Ninon Machado

  3. Virgínia Grace Barros

    Prezado Prof Tucci, enquanto quem entende algo de hidrologia levanta estes problemas, o governo catarinense está por modificar o código ambiental no Estado diminuindo as áreas de proteção e aumentando a ocupação em áreas vulneráveis… Solicito a divulgação do site do Comite do Itajai para que seja assinado um abaixo-assinado virtual para que seja mais discutida a alteração da Lei na Assembléia. Grata, Virgínia Grace Barros
    LINK PARA ASSINAR:
    http://www.comiteitajai.org.br/abaixoassinado/

    Para ler mais sobre projeto de código ambiental e emitir sua opinião, acesse http://www.comiteitajai.org.br/blog

  4. Beate Frank

    Prezado Prof. Tucci:

    O resgate da histórica questão das cheias do Vale do Itajaí e o evento recente apresentados no seu blog são interessantes e pertinentes. Os seus alertas sobre ações planejadas no passado também são muito bem vindos. Bem como a observação de que o Sistema de Gestão de Recursos Hídricos ainda não acordou para os eventos extremos, que se acentuam à medida que as bacias não são devidamente geridas. O Comitê do Itajaí já desenvolveu muitos esforços no sentido de promover uma gestão mais integrada da bacia tendo em vista a questão das enchentes, mas poucos ouvidos tem dado atenção a isso. E assim pouco se avança.

    Quanto ao uso dos mapeamentos de áreas inundáveis temos melhorias a assinalar. Os municípios de Gaspar e Rio do Sul estabeleceram áreas não edificáveis com base no zoneamento do risco de cheias em seus planos diretores. Blumenau também, só que nesse caso o estudo feito pela CPRM foi detalhado pelo IPA/FURB, considerando a declividade da linha de água do rio Itajaí-açu no trecho que corta a cidade. Com base nesse estudo, a carta-enchente foi traçada no mapa cadastral de Blumenau (escala 1:2000), permitindo que a cota-enchente de cada edificação conste no carnê do IPTU.

    Em relação ao recente evento, alguns dados adicionais podem enriquecer a análise. O Centro de Operações do Sistema de Alerta de Cheias (IPA/FURB) registrou os seguintes dados de precipitação no mes de novembro:

    BLUMENAU
    1001,7

    TIMBÓ
    799,3

    APIÚNA
    393,8

    IBIRAMA
    273,8
    RIO DO SUL
    194,9

    TAIÓ
    173,6

    ITUPORANGA
    169,8

    que denotam uma diferença acentuada do litoral para o interior da bacia. Os dados dos dias do evento reforçam esse gradiente.

    Data Horário Blumenau Timbó Apiúna Ibirama Rio do Sul Taió Ituporanga
    21 7 h 38 11 3,6 0 1,6 10 2,1
    22 7 h 43,3 21,6 10,6 10 8,6 18,1 4
    23 7 h 243,5 184,9 55,5 55 17,4 24,7 8,9
    24 7 h 250,9 63,4 81,9 40 35,9 8,9 11

    Possivelmente no litoral a chuva foi ainda mais intensa. Portanto, pode-se dizer que o evento recente não foi uma enchente “produzida” na bacia do Itajaí. Registramos de fato três fenômenos: (a) chuvas intensas localizadas na região da Foz e nas sub-bacias do Benedito e do Itajaí Mirim (ocorrerram 3 vezes, 2 delas no dia 22 e 1 no dia 23); (b) inundações bruscas (conhecidas localmente como enxurradas) (c) que geraram uma enchente do rio Itajaí-açu a partir do médio vale, que culminou com uma inundação extensa no município de Itajaí, na confluência do Itajaí Mirim com o Itajaí-açu e (d) deslizamentos.

    Essas enxurradas também fizeram com que a carta-enchente de Blumenau deixasse de servir. A dinâmica da enxurrada em cada ribeirão se sobrepôs à cota-enchente estabelecida à partir do rio Itajaí-açu, gerando diferenças de cota muito acentuadas entre o que ocorreu e o que constava na carta-enchente. Alguns exemplos mostram isso com clareza: (a) na Rua Antônio da Veiga (sub-bacia do ribeirão da Velha) foi observada uma cota de inundação com 1,20m superior a 11,52m (o nível máximo atingido pela cheia do rio Itajaí-açu); (b) no terminal de ônibus da Fonte Luminosa (sub-bacia do ribeirão Garcia), a cota observada foi superior em 0,90m; (c) na Rua Júlio Michel com a Francisco Vahldieck (na sub-bacia do ribeirão Fortaleza), a cota observada foi superior em 1,20m.

    Ainda assim, é na combinação das enxurradas com os deslizamentos que está o problema mais grave desse evento nos municípios do médio vale.

    Prof. Dra. Beate Frank
    Secretária Executiva do Comitê do Itajaí

  5. Prezado Prof Tucci, sou acadêmico do curso de Engenharia Ambiental-UNIVALI e estou realizando um trabalho de conclusão do curso sobre ELABORAÇÃO DE CARTAS DE VULNERABILIDADE À ENCHENTES EM ITAJAÍ, SC.
    Gostaria da sua ajuda através de indicações de livros ou artigos sobre enchentes, e aonde eu posso encontrar dados confiáveis sobre séries históricas de inundações/enchentes (cotas,vazões e precipitação(mm)) do rio Itajaí – Mirim, pois quero calcular o periódo de retorno dos eventos extremos.
    Tal estudo responderá, em parte, aos anseios da comunidade, ao passo que servirá como instrumento para o planejamento e gestão municipal. A partir do resultado, a comunidade poderá pleitear junto a Defesa Civil um plano de emergência para minimização dos prejuízos que potencialmente poderão ser causados a partir de um cenário acidental.

    Obrigado, Mateus Borges Tengaten.

    Mateus

    Recordo que a Furb em estudo realizado na década de 90 tinha levantado os dados do Itajai- Açu em Blumenau desde 1852 (marcas de enchente e série continua depois de 1935). Parte destes dados estão num relatório feito para a CPRM para o DNAEE. Tem um publicação no IPH que tem parte destes dados. Uma pessoa que pode informar estes dados é o prof. Andre Silveira diretor do IPH veja o e-mail dele no site http://www.iph.ufrgs.br.

  6. Rogério Maestri

    Caro Tucci

    Espero utilizar o teu Blog para chamar a atenção de dois fenômenos que ocorreram simultaneamente em Santa Catarina e que estão sendo tratados da mesma forma.

    Em decorrência das grandes chuvas e do zoneamento errado das cidades catarinenses ocorreram o que se denomina geralmente deslizamentos. Estas ocorrências são bem conhecidas pelos nossos técnicos e se algum dia for feito um zoneamento correto e estabelecidas áreas de risco a morbidade desses eventos pode ser levada a zero ou próximo a isto. Porém com os poucos dados que disponho tenho quase certeza que em determinadas regiões ocorreram não deslizamentos, mas fluxos lamosos (uma tradução livre para mud flows).

    Qual a importância desta diferenciação que pode parecer simplesmente acadêmica?

    Um deslizamento restringe a sua área de ação à base da encosta que o origina, por outro lado tanto os fluxos lamosos como os fluxos de detritos (algumas vezes utilizados como sinônimos) atingem uma área muito mais ampla tendo a capacidade destrutiva perpassando a base da colina ou encosta que o originam. Esta diferença faz com que estabelecimento de áreas de risco limitadas ao sopé das encostas não tenham eficácia.

    Outro problema que não se dá conta é que a produção de fluxos lamosos necessariamente não é causada por degradação ambiental causada pelo homem. No último evento de chuva em Santa Catarina, identificam-se cicatrizes geradoras de fluxos lamosos a partir de zonas completamente florestadas. Isto mostra que há um processo de instabilização mesmo em regiões intocadas ou parcialmente recuperadas que podem gerar fluxos lamosos.

    Preocupa-me que o estudo destes problemas é feito geralmente por especialistas na área de mecânica dos solos que ao quantificar um fenômeno, estes esquecem simplesmente a fase líquida que se desenvolve numa ravina sobre a região que ocorre o colapso, resultando em condições estáveis quando na realidade não o são. Isto ocorre, pois para especialistas da área de solos geralmente a água entra como um agente passivo modificando somente as características do solo, como o ângulo de atrito interno do mesmo, e desprezando os efeitos erosivos da água combinado com a instabilidade do solo.

    Chamo a atenção que também que o uso genérico da palavra fluxos de detritos pode levar a um diagnóstico incorreto do fenômeno ocorrido. A literatura utiliza tanto em língua inglesa como em português o termo fluxo de detritos lamosos, para um fluxo lamoso, qual a conseqüência disto? Mais uma vez um diagnóstico inadequado, pois a palavra detritos leva a hipótese da existência de materiais de maior granulometria, logo ao se constatar a presença somente de argila ou siltes nos depósitos provenientes desses fluxos, podem esses ser interpretados como um fluxo normal com uma concentração de sedimentos um pouco alta.

  7. fernando peixoto

    Bem nao é admissivel um estado rico e uma cidade rica como blumenau conviver com enxentes terriveis donde sabemos que varias medidas poderia ser feitas no rio itajai para sanar de vez este problema uma blumenau tem cerca de 21 metros acima do nivel do mar dois a vazao do rio poderia ser aumentada mesmo estas medidas causando um certo impacto ambiental,, mas seria melhor que a destruiçao populacional e os vestigios arrastados pelas enxentes da cidade de blumenau um estudo ambiental, seguido com um projeto de aumento de vazao da agua pelo rio, descida no seu nivel e retençao em curvas bruscas no rio com pedras grandes para evitar o rompimento dos limites do rio. Como é possivel o governo fazer vista grossa com um assunto e tecnologia tao avançada pararesolver de vez uma questao tao simples.fiz turismo e hotelaria…entrem em contato no meu e-mail ok abraço.. fernandomarte@hotmail.com

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