Inundações e o clima

Nas últimas semanas as inundações no Nordeste tem sido o grande destaque (34 mortes e 900 mil desabrigados), enquanto que no Sul do Brasil, principalmente o Rio Grande do Sul a seca tem sido o principal impacto climático (Usina hidrelétrica sem gerar energia por falta de água e racionamento para consumo). Este cenário é justamente oposto ao dos últimos anos quando a seca predomina no Nordeste e as inundações no Sul e Sudeste do Brasil.
As médias de precipitação nestas regiões mostram que o final do período chuvoso do Sudeste brasileiro é em abril e no Nordeste o período chuvoso ocorre de janeiro a junho(depende da região). No entanto, no Rio Grande do Sul, o período chuvoso deveria iniciar em maio até setembro, mas nos últimos anos observam-se dois períodos chuvosos, em parte do verão e no inverno. Neste ano, este período chuvoso está atrasado com a estiagem prolongada.
A variabilidade interanual no Brasil é influenciada pelas condições de temperatura do Oceano Pacífico. Freqüentemente o noticiário menciona o El Niño e La Nina como indicadores de cenários climáticos. El Nino foi o termo utilizado por pescadores peruanos no século 19 para descrever o aquecimento da temperatura do mar na costa do Peru no período do Natal. Atualmente o termo descreve a fase de aquecimento natural que ocorre da oscilação da temperatura do mar na área tropical do Oceano Pacífico. A variação ou a oscilação da temperatura do mar está associada ao comportamento da atmosfera. O ENSO é o componente da atmosfera deste processo e indica a variação de pressão do ar entre Darwin na Austrália e o Sul do Pacífico, na ilha de Tahiti. Quando a pressão está alta em Darwin em Tahiti está baixa e vice-versa. El Niño e La Niña (Figura 1 abaixo) são as fases extremas da Oscilação do Sul (Southern Oscilation), sendo o El Nino a fase quente no leste do Pacífico e La Nina a fase fria (ventos mais fortes). Os registros mostram que estes aumentos e reduções de temperatura ocorrem num da ordem de poucos anos (4-7 anos). Atualmente as condições do Pacifico são temperatura baixa e ventos fortes, caracterizando um período de La Nina.
Nas últimas três décadas houve uma maior freqüência de El Ninos, que apresentaram correlações com enchentes no Sul e Sudeste do Brasil e secas no Nordeste como em 1983 e 1992. Observando os dados de vários postos pluviométricos em várias regiões nordestinas se observou que desde a década 80 ocorre uma tendência de redução precipitação, com exceções como este ano. Atualmente no Oceano Pacífico ocorre uma La Nina, que indica que as temperaturas estão mais frias e está mostra mais chuvas no Nordeste e seca no Sul. São correlações que hoje grande parte da população, que depende do clima, de alguma conhece, porque tem afetado sua vida.
Neste período (1970 a 2000) a região Sudeste foi premiada com mais vazão nos rios, o que permitiu as hidrelétricas de produzirem muito mais energia do que foi prevista no seu projeto; maior frequência de inundações, poucos períodos secos e maior oferta hídrica para agricultura. A Bacia do rio Paraná de montante a jusante mostrou aumento de vazões da ordem de 30% neste período com relação período anterior. Retrato deste comportamento pode ser visto na figura 2 abaixo onde foi plotada a vazão de uma bacia mais a jusante dos rios Paraná, Uruguai e Paraguai e o ENSO (+ positivo representa mais quente; – mais frio). Podem-se observar as fases antes e depois de 70 (lembre que são médias móveis de 10 anos).
A grande questão atual é se esta tendência pode estar voltando para a fase fria desde 2000, com importantes conseqüências para os usos e impactos dos recursos hídricos. Nas semanas que seguem iremos apresentar outros indicadores, relações e citações que mencionam esta tendência.
Existem vários sites com informações sobre ENSO, El Nino e La Nina, alguns deles são: http://enos.cptec.inpe.br/ e a NOAA veja indicação na figura 1.

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Figura 1 Fonte: NOAA site : http://www.pmel.noaa.gov/tao/elnino/la-nina-story.html

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Figura 2 – Relação entre a média móvel de vazões do rio Paraguai, Uruguai e Parana e o indicador ENSO do Pacífico

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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