Incertezas devidos às séries hidrológicas

A Hidrologia utilizada na gestão de recursos hídricos adota um princípio bastante discutível. Este princípio é de que no futuro se repetirá a série do passado ou pelo menos as suas estatísticas (média, desvio padrão, etc) sem mantém. Quando é projetada uma barragem, o volume de projeto é determinado com base neste princípio, da mesma forma que um dique ou mesmo a energia assegurada, no caso de hidrelétricas.
A Incerteza é a diferença entre a amostra das estatísticas de uma série e as estatísticas da população (todas as possíveis ocorrências). Quando esta diferença é muito importante o projeto ou o planejamento pode estar sub-dimensionado ou super-dimensionado. As incertezas são resultado do seguinte (veja a discussão deste tema na entrevista com o prof. Clarke):

(a) séries hidrológicas pouco representativas, que possuem poucos anos e não retratam o que vai ocorrer no futuro. Por exemplo, no Rio Grande do Sul, a série de 1952 -2007, apesar de ter 56 anos é tendenciosa porque não considera o período de 1942 a 1951, que teve a maior seca dos últimos 90 anos (que poderá ocorrer no futuro). Um reservatório dimensionado com a série que englobe a década de 40 possui o dobro do volume que o dimensionado com a série tendenciosa;
(b) Efeito do uso do solo ou mudança climática. Estes efeitos alteram as estatísticas da série com o tempo, na medida que estes efeitos ocorrem. Por exemplo, uma bacia que teve grande desmatamento, alteração do uso do solo, aumento da retirada de água da bacia, etc; a vazão se modifica com o tempo e a série não é estacionária (estatísticas que não variam com o tempo). O mesmo ocorre com uma bacia devido à urbanização. Para o futuro deverá perdurar o cenário da bacia desmatada, que não é o mesmo do passado, ou se houve mudança climática.
Devido as grandes alterações que ocorrem na área rural e urbana, o aumento da incerteza dos projetos hídricos está aumentando com custos para a sociedade em prejuízos ou em obras mais caras, geralmente os primeiros.
Como este problema pode ser mitigado? Por meio da revisão dos projetos, que custa caro ou pelo uso de previsão de vazão, assunto que vou abordar no futuro aqui.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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