Hidrologia ambiental do Pantanal

O comportamento do rio Paraguai no Pantanal foi uma grande surpresa para mim quando pela primeira vez trabalhei com as suas informações na década de 80. Este estudo foi um dos primeiros estudos de regionalização hidrológica no país, no qual criamos um manual para a Eletrobrás.
No início do estudo encontramos dois grandes desafios:

(a) ao contrário do que imaginávamos, a vazão nos afluentes e no próprio rio Paraguai diminui quando os rios entram no Pantanal (em alguns aumentam) durante as vazões altas e aumenta durante as vazões mínimas.
(b) verificou-se um grande aumento de vazão máxima e vazão média, depois de 1973, ao longo do rio Paraguai e afluentes. Os valores chegavam a variar de duas ordens de magnitude.

A diminuição das vazões (caso a acima) nos deixou muito intrigado por que não era em apenas um trecho, mas isto acontecia em quase todos dentro do Pantanal. Para encurtar este relato, depois de uma longa análise dos dados, verifiquei que os rios dentro do Pantanal, que é uma planície com baixa declividade, formam leques aluvionares com grandes planícies de inundação. As vazões (hidrograma) provenientes do Planalto do rio Paraguai (áreas acima de 200 m) descem para o Pantanal e seus rios possuem menor capacidade de escoamento devido à baixa declividade da linha de água, e restrições de escoamento a jusante. O volume excedente vai para as planícies e grande parte não retorna, retendo nos lagos internos que se formam. Parte se evapora, pois o balanço hídrico dentro do Pantanal é negativo (chuva é menor que evapotranspiração potencial) e parte se infiltra aumentando a recarga no período seco. No entanto, como os hidrogramas vêm com grande parte de sedimentos, as lagoas da planície que se formam tendem a colmatar o fundo e reduzir a parcela da infiltração. Nos afluentes do rio Paraguai como Cuiabá, Taquari, entre outros a tendência é de redução da ordem de 50% do volume de água e sedimentos para jusante que fica retido na planície e parte até no próprio leito, já que o rio tende a contribuir para a Planície e não ao contrário. Por exemplo, a cota de fundo da seção do rio Taquari, próximo ao rio Paraguai é a maior cota de fundo da seção que considera também a planície. Ao longo do rio Paraguai a redução pode chegar a valores de 20%.
Este tipo de cenário ocorre em menor escala em outros rios com grande planície de inundação, como em alguns trechos do Amazonas.

Quanto ao aumento das vazões (caso b acima), foi possível identificar a sua causa porque existe uma única série longa da bacia em Ladário, próximo de Corumbá, com dados de 1900 até os dias de hoje, enquanto todos os outros postos iniciaram depois de 1965. Verificou-se que ocorreu um período de 13 anos (1960-1973) com precipitações e vazões muito baixas. Em Ladario, entre 1900 e 1960 as cotas de inundações flutuaram em cerca de 4,0 m, enquanto entre 1960 e 1973 flutuaram em cerca de 2,00 m e depois de 1973 vêm flutuando acima de 5,0 m. Portanto, o aumento, foi o retorno a uma situação pré-existente e a década de 60 foi muito seca com áreas de inundação do Pantanal da ordem de 16 mil km2 enquanto que depois disso as áreas médias chegaram a 50 mil km2, com efeitos importantes da convivência da população e do próprio ambiente com os condicionantes climáticos.
Qual seria então a causa desta variação? Os três vilões (quando isto for um problema) tradicionais podem ser: uso do solo, mudança climática (antrópica) ou variabilidade climática (natural). Verificou-se que a grande parcela foi variabilidade climática natural com algum efeito do uso do solo.

Este conjunto de comportamentos hidrológicos observados faz do Pantanal um sistema em constante dinâmica, pois a água da planície é que permite a sustentabilidade do banhado, caso contrário a região tenderia se transformar numa área de cerrado, pois o seu próprio balanço hídrico não garantia umidade por períodos longos de seis meses quase sem chuva, como é a realidade local. No entanto, na variabilidade inter-anual isto produz descontinuidades como a década de 60 que leva o banhado (e a população que dele vive) a condicionantes restritivos para o banhado benéficos para parte da população que possuem gado. Um proprietário que comprou uma propriedade com 20% de chance de inundação ao ano na década 60, passa a ter mais de 85% de chance depois de 73.

Será que estamos preparados para estes caprichos do clima e da natureza?
Para mais informações sobre este assunto: http://rhama.net/revparagua.pdf
O artigo ainda não foi publicado e o documento é uma minuta

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Figura 1 Mapa de fluxos do Pantanal

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Figura níveis máximos no Pantanal

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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