Haverá escassez da água?

O título acima é um comentário recorrente em todo o mundo (e neste blog !). Nesta semana a revista Economist (WWW.economist.com) uma das principais revistas internacionais, apresenta um relatório especial (conteúdo em inglês no site acima ou nas bancas) sobre a água e a preocupação com o aumento da demanda, os locais críticos e a experiências de sucesso como em Cingapura.

O artigo principal destaca que a demanda continua crescendo para uma disponibilidade fixa e menciona que cerca de 1/6 da população mundial continua sem água. Com crescimento populacional previsto para os próximos 40 anos o globo chegará a 9 bilhões e 70% desta população viverá em cidades. A escassez não ocorrerá apenas pela demanda, mas pela perda de disponibilidade por poluição das fontes, como ocorre na maioria das cidades brasileiras. Como todo este crescimento será em países em desenvolvimento, é possível que a proporção de pessoas sem água possa aumentar, apesar das metas do milênio das Nações Unidas (metas que pretendem reduzir em 50% o déficit em saneamento até 2015).

A agricultura representa 70% da demanda mundial de água e a poluição principal é a falta de tratamento de efluentes das cidades (incluídas as indústrias). As cidades representam grande demanda localizada no espaço (83% da população brasileira ocupa 0,27% do território do país), produzindo grande carga poluente.

As principais linhas de ação para mitigar estes problemas no futuro podem ser resumidas no seguinte:

1. Aumento do armazenamento para regular a disponibilidade no tempo e permitir seu uso nos períodos em que a oferta hídrica é pequena. A regularização gera conflitos ambientais e perde parte do volume por evaporação dos lagos e, em regiões semi-áridas pode salinizar. Apesar disto, é a única forma de aumentar a oferta nos períodos de escassez;

2. Aumentar a eficiência tecnológica para reduzir a demanda hídrica, principalmente na agricultura onde está a maior proporção da demanda; reuso da água – Tratamento eficiente dos efluentes e recuperação da sua qualidade, já que apenas 20% da água é consumida pela população; racionalização do uso da população por equipamentos mais eficientes nas residências e indústrias que demandem menos volume: descargas, máquinas de lavagem, etc;

3. Dessalinização: a quantidade de água nos mares é infinita, a retirada dos sais tem um custo ainda da ordem de US$ 0,50/m3, alto se comparado com custos de águas superficiais não salinas. Este custo está relacionado principalmente pelo uso de energia, que tem aumentado de preço nos últimos anos. A dessalinização de água salobra, encontrada em regiões semi-áridas tem um problema adicional relacionado com o impacto ambiental do seu efluente;

4. Gestão dos serviços: A gestão é uma condição necessária para a água tenha o valor representado pela sua importância na vida humana. Para que os outros itens sejam viáveis é necessária uma gestão eficiente que viabilizem muitas das tecnologias mencionadas acima e o preço da água seja adequadamente relacionado com a sua disponibilidade. As tecnologias somente se tornam eficiente quando houver mercado que valorize o produto. Quando a água é subsidiada é possível até cultivar arroz de inundação em região semi-árida (o que é um absurdo!) distorcendo a valoração da água.

O Brasil é um país de grandes recursos hídricos e com pouca eficiência na gestão da água em muitos setores. Essa riqueza não ocorre em todos os locais. As condições críticas na relação disponibilidade x demanda e qualidade ocorre em grande cidades como São Paulo, que está no limite da disponibilidade de água de boa qualidade. Nos últimos anos, para garantir a demanda, obteve maior eficiência na redução da demanda e na redução da perdas nas redes. Apesar disto, a carga que retorna para os rios é ainda 44% do total, reduzindo a disponibilidade pela perda por qualidade da água. Também ocorre no semi-árido, onde a agricultura dificilmente é sustentável sem subsídios para culturas tradicionais. Nem sempre a limitação hídrica entra na estratégia de desenvolvimento sócio – econômico de uma região, mas em regiões críticas como as mencionadas são essenciais, já que a natureza cobra um seu preço alto nas enchentes e nas secas.

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About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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