Escoamento em rios II: medidas de vazões

Uma das principais variáveis utilizadas na gestão dos recursos hídricos é a vazão de um rio. Esta variável indica caracteriza a quantidade de água que é possível obter da bacia hidrográfica em função do tempo. Isto é importante para determinar a disponibilidade hídrica para abastecimento de água humano, animal e industrial, para produção de energia, para a irrigação, navegação entre outros. Sem a vazão, não é possível fazer a referida gestão.

A obtenção da série de vazões de uma determinada seção do rio (que engloba sua correspondente bacia hidrográfica) permite conhecer a quantidade de água no tempo. Para obter estes valores utiliza-se da leitura de níveis do rio neste local, já que a medição contínua de vazão é mais complexa e possui um custo mais alto. Para se chegar a vazão utiliza-se a relação entre a vazão e nível (chamada curva-chave) que é construída com base em valores de vazão amostrados em diferentes épocas do ano. Utilizando os valores medidos de níveis, com a curva obtém-se a vazão correspondente e a série de vazões.

Neste processo indireto de obtenção da vazão, pela leitura de níveis e uso da curva –chave, existe um grande número de incertezas que podem produzir efeitos importantes na decisão que são tomadas nos planos e projetos de recursos hídricos. Os principais estão relacionados com o seguinte:

• A localização do posto de leitura de níveis pode sofrer efeitos que não foram previstos como remanso de jusante, obstruções temporárias de material sólido, réguas de medidas danificadas, e leitura é realizada com erro. Quando existem efeitos de jusante a curva –chave pode não ser válida e são necessários dois locais com leitura de réguas, para estimar a declividade da linha d´água ;
• A curva –chave deve ser construída com uma amostra de pontos suficientemente representativos de toda a sua extensão. É comum existirem curvas –chave sem pontos nos extremos (níveis baixos e altos) das observações de níveis. A extrapolação desta curva geram erros muito importantes que podem invalidar um projeto (figura 1).
• Mudança do leito da seção devido à erosão ou sedimentação do leito. Isto ocorre com frequência após uma grande inundação que muda o leito dos rios produzindo efeitos como mostra a figura 2.

Tive vários casos em que os dados disponíveis poderiam ter me levado a decisões inadequadas pelo grau de incerteza disponível nos mesmos. É essencial que estes dados sejam examinados por hidrólogos antes de serem utilizados em projetos. As agências que tratam os dados fazem consistências de forma global e apresentam os resultados de acordo com os dados que dispõem. É de responsabilidade do profissional que atua em recursos hídricos examinar se se os dados disponíveis são adequados ao seu projeto.

Sugiro que quando escolher uma série verifique a faixa do hidrograma onde a curva-chave dispõe de dados é mais confiável, o que permite ao gestor entender onde estão suas incertezas e tomar decisões adequadas a estudo (figura 3).

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figura 1

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figura 2

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figura 3

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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