Entrevista com prof. Tundisi

José Galizia Tundisi, 71 anos, Presidente do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos. Mestrado em Oceanografia pela Universidade de Southampton, Inglaterra, Doutor em Ciências pela USP, Docente em Ecologia, USP. Aposentou-se como professor titular da USP na Escola de Engenharia de São Carlos. Atua em Limnologia de lagos e represas; gestão de recursos hídricos em bacias hidrográficas: bases cientificas para a gestão. Ciclos biogeoquímicos e produtividade primaria fitoplanctonica em lagos e represas. Tem 310 trabalhos publicados, Editou 23 livros e autor de 4 livros. É membro da Academia Brasileira de Ciências; da Academia de Ciências do 3º Mundo; da academia Mundial de Artes e Ciências; do Ecology Institute Excellence in Ecology – Alemanha .
Foi presidente do CNPq (1995-1999). Assessor do MCT e coordenador do projeto Institutos do Milênio (2000). Consultor internacional em 40 países. Representa a comunidade cientifica no Comitê Gestor do CT-Hidro. Coordena projeto internacional para formação de gestores de recursos hídricos em 6 países (Brasil, Polônia, Rússia, China, África do Sul, Jordânia) Coordena projeto internacional Água para as Américas com apoio das Academias de Ciências.

Tucci: 1. Como representante da comunidade científica no comitê diretivo do CTHIDRO quais são os planos de investimentos de pesquisa previstos para o próximo semestre na área?

Tundisi: Há vários planos de investimentos, na pesquisa que estão sendo discutidos e há propostas para editais na área de planejamento de gestão de bacias hidrográficas. Temos também uma carteira grande de projetos que resultaram de uma prospecção que coordenei em 2006 e que pretende-se colocar em discussão nos próximos meses.

Tucci. 2. Uma das áreas novas da ciência que interrelaciona hidrologia e os aspectos ambientais é a ecohidrologia, que tem um programa impulsionado pela Unesco. Quais as linhas deste tema que são essenciais para serem pesquisadas no contexto das demandas brasileiras?

Tundisi: Ecohidrologia é realmente uma nova área que abre inúmeras possibilidades para o futuro da pesquisa em recursos hídricos no Brasil. As linhas essências deste tema que devem ser consideradas no contexto das demandas brasileiras são:
i) Ecohidrologia aplicada a rios urbanos e na conservação e recuperação de várzeas em áreas urbanas;
ii) Estudos para compreender cientificamente e de forma mais profunda a interação entre processos ecológicos e hidrológicos especialmente em regiões de várzea, grandes deltas internos;
iii) Para a região amazônica a aplicação de ecohidrologia pode ser uma saída inteligente para a construção de reservatórios e a preservação de áreas de rios, que sendo mantidas intactas, podem continuar a ser “centros ativos de evolução” através de processos ecohidrologicos.

Tucci 3. Quais são as áreas que possuem boas oportunidades de trabalho para recomendar a um jovem profisssional se especializar em meio ambiente?

Tundisi: Há algumas áreas que estão despontando como essenciais no Brasil e que demandarão muitos recursos humanos:
i) Modelagem matemática e ecológica de ecossistemas aquáticos (lagos, rios, represas áreas alagadas) para ampliar a capacidade de elaborar cenários e dirigir questões a pesquisadores da área básica.
ii) Construção de índices de bioindicadores de contaminação regionais para avançar as analises de impactos toxicológicas.
iii) Biomagnificação de metais pesados, pesticidas, herbicidas na rede alimentar
iv) Hidrodinâmica de lagos, rios, represas e processos associados de distribuição de organismos, substancias e elementos.
v) Distribuição geográfica de organismos aquáticos e impactos de espécies invasoras nas redes alimentares e nos sistemas aquáticos.
vi) Estudos dos poluentes orgânicos persistentes (POPS) e seus efeitos nos organismos e na saúde humana.

Tucci 4. Existe uma imagem na midia impressa e, em partes do governo, que o meio ambiente esta travando o desenvolvimento do país. Quais são os prós e contras desta visão ?

Tundisi: Esta imagem que existe na imprensa não é correta. O fulcro do desenvolvimento está no uso da ciência e tecnologia e do conhecimento adquirido, para corrigir, melhorar e aprofundar os projetos de desenvolvimento (estradas, represas, agronegócio, indústrias). É assim que os países desenvolvidos fizeram com grande sucesso (Exemplo: Estados Unidos, Japão, Alemanha). O conhecimento cientifico em meio ambiente, deve ser utilizado para otimizar os projetos de desenvolvimento. Criou-se no Brasil, em parte devido à imprensa, em parte devido à visão distorcida de certas áreas do governo que meio ambiente e desenvolvimento econômico são incompatíveis.
Não é verdade. Se não de que adianta o investimento em ciência e tecnologia dos últimos 50anois? Meio ambiente é o caminho para o desenvolvimento e não deve ser considerado como um empecilho. Muitos devem aprender nesta área: os investidores que podem se beneficiar com investimentos em meio ambiente; o governo que deve agilizar analises, ajudar a reformular projetos e não recusá-los; as universidades que necessitam de uma visão menos acadêmica, mais aplicada; e a imprensa que precisa publicar informações mais precisas sobre as diferentes saídas para o problema e as várias etapas do processo.

Tucci. 5. Como ex-presidente do CNPq como você vê o futuro da pósgraduação no Brasil e principalmente na área de recursos hídricos e meio ambiente.

Tundisi: A pós-graduação no Brasil atingiu um nível de excelência internacional e produz um número expressivo de mestres e doutores em muitas áreas da ciência e tecnologia. Entretanto a meu ver falta um projeto mais abrangente de absorção desses doutores, e mestres. No caso dos recursos hídricos isto é típico: há excelentes cursos de pós graduação, mas ainda há muitas regiões do país e áreas de pesquisa com lacunas. Na nossa área de recursos hídricos acredito que o caminho mais rápido será escolher temas prioritários para a formação de recursos humanos, (exemplos na resposta da questão 3) e apoiar decisivamente a formação de mestres e doutores nessas áreas.
Por exemplo, você escolhe uma área prioritária como modelagem matemática ou biodiversidade, investe decisivamente nessa área de apoio maciço com bolsas em cursos relacionados, e ao mesmo tempo prepara um instituto de pesquisa ou departamento da Universidade para receber esses doutores e mestres formados nesse pacote. Isto pode acelerar o desenvolvimento de áreas prioritárias ou criticas. Em recursos hídricos e meio ambiente. Sobre as outras linhas a meu ver estão, em grande parte, instaladas na resposta à pergunta 3, Modelagem, biodiversidade, orgânicos dissolvidos na água, impactos de espécie invasora, ecohidrologia, bioindicadores, bioacumulação, Toxicologia. Não se pode esquecer que no “relatório Tundisi” que fez uma varredura e analise critica dos 25 Institutos de Pesquisa do MCT (ano 1999 – 2000 participação de 80 cientistas) ficou a recomendação de abrir novos institutos em áreas especificas (como por exemplo Instituto do Semi Árido que foi criado). Estes novos institutos seriam vias ideais para receber doutores formados nesses projetos estratégicos. Na área de Recursos hídricos, por exemplo, você pode fazer um projeto estratégico amplo para o INPA e Museu Goeldi formam 200-300 doutores em cinco anos em áreas especificas com prioridades definidas.
Um país como o Brasil necessita de projetos estratégicos de longo prazo para a formação de recurso humanos, especialmente em recursos hídricos e com os problemas que estamos enfrentando.
Também há necessidade enorme de formação de técnicos e gestores e não só Ph – Ds e MsC .

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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