Entrevista com pf. Pedro Silva Dias sobre o clima – Parte II

Caso não tenha lido a primeira parte da entrevista com o Dr. Pedro Silva Dias colocada na semana passada, acesse mais abaixo a parte I antes de ler o texto a seguir.

Tucci – 3. O aquecimento é creditado ao aumento do CO2 na atmosfera, segundo o IPCC e Al Gore. No entanto existe uma grande polêmica de pessoas contrárias a esta visão de que na realidade o CO2 está aumentando devido também ao aumento da temperatura e, portanto, o que está ocorrendo é variabilidade natural e não depende das emissões. Qual a sua visão sobre esta polêmica?

Pedro: Os dois lados tem razão. É certamente verdade que a temperatura controla a concentração de CO2. A capacidade de armazenamento de CO2 na água dos oceanos, por exemplo, é função da temperatura. Também é verdade que o vigor da biota terrestre depende da temperatura. Por outro lado, a concentração de CO2 altera a capacidade da atmosfera absorver e emitir calor.
Já ouvi comentários sobre o fato de a concentração atual de CO2 na atmosfera ser tão alta que o dobramento da atual concentração pouco efeito teria na temperatura do nosso planeta. Esse argumento não encontra suporte nos modelos de transferência radiativa que usamos hoje em dia (inclusive nos modelos mais sofisticados que, de tão complexos, não podem ser usados nos modelos climáticos). O dobramento da concentração de CO2 leva um a uma maior opacidade da atmosfera à transferência de calor, produzindo um relativo aquecimento na baixa atmosfera e resfriamento nas altas camadas. Esses modelos apontam para um efeito de resfriamento nas altas camadas da atmosfera relativamente mais intenso que o aquecimento em baixos níveis.
É exatamente essa “assinatura” do perfil do vertical da mudança de temperatura associada ao aumento da concentração dos gases de efeito estufa que nos sugere que o impacto do aumento da concentração de gases de efeito estufa já está sendo observado. As evidências observacionais apontam para um pequeno aquecimento em baixos níveis e um resfriamento mais significativo nos altos níveis. Ou seja, exatamente como previsto nos modelos.

Tucci – 4. O grande desafio do momento na engenharia é prever alguns anos e uma década no futuro para planejamento estratégico. Por que esta área tem tão poucos resultados? Não é porque os recursos estão demais concentrados sobre mudança climática?

Pedro: Prever o tempo além de alguns dias é uma tarefa difícil em função da alta dependência da previsão com relação ao estado inicial da atmosfera. Prever o clima na escala de alguns anos é um desafio particularmente difícil pela mesma razão, isto é, não sabemos o estado inicial do sistema climático com o detalhe necessário. Neste caso o problema está no oceano. O sucesso das previsões na escala de alguns anos (ou décadas) passa pelo conhecimento do estado dos oceanos em profundidade. As circulações oceânicas que controlam a variabilidade da temperatura da superfície do mar na escala de vários anos são profundas. Nosso sistema observacional atual é incompleto nos oceanos.

Um dos grandes desafios da previsão climática para os próximos anos é desenvolver um sistema observacional nos oceanos , semelhante ao que hoje existe na atmosfera. Esse futuro sistema observacional vai permitir um salto enorme na qualidade das previsões climáticas e poderemos fazer previsões confiáveis, por exemplo, da variabilidade decadal do Pacífico (PDO). Neste meio tempo, nos resta usar os modelos climáticos para entender processos e usar métodos estatísticos para fazer previsões nas escalas de tempo de vários anos. Uma boa notícia é que nestes últimos anos estamos finalmente conseguindo alguns resultados promissores com relação, por exemplo, à variabilidade decadal do Pacífico. Alguns modelos do IPCC já conseguem descrever com razoável destreza, a estrutura da PDO. O próximo passo é prevê-la em tempo real. Para isto será necessário aprimorar o sistema observacional oceânico.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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