Entrevista com prof. Pedro Silva Dias sobre o clima – Parte I

O prof. Pedro Leite da Silva Dias é formado em Matemática Aplicada na USP, 1974, MSc e PhD em Ciências Atmosféricas na Colorado State University (1977 e 1979, respectivamente). É professor no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosférias desde 1975 e foi pesquisador senior do INPE entre 1988 e 1991, onde foi Chefe do (CPTEC) Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos na fase de implementação. É membro da Academia Brasileira de Ciências e atualmente é Diretor do Laboratório Nacional de Computação Científica do MCT. Orientou mais de 50 mestres e doutores em temas relacionados com ciências atmosféricas e aplicações.

Tucci: Atualmente todos eventos fora do normal como uma seca, chuva intensa e inundação são creditados ao efeito estufa e o aquecimento global. O quanto disto é verdade ou alarmismo?
Pedro: É muito comum a atribuição da origem de anomalias climáticas ao fenômeno El Niño/La Niña ou ao aquecimento global produzido pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa. Existem outros fenômenos que interferem significativamente na ocorrência de fenômenos extremos. Existem oscilações de baixa frequência, com período da ordem de décadas , como a Oscilação Decadal do Pacífico , usualmente conhecida como PDO pelos especialistas (ver em http://en.wikipedia.org/wiki/Pacific_decadal_oscillation). A PDO exerce forte controle sobre a variabilidade climática. No Brasil, particularmente na região da Bacia do Prata e na Bacia Amazônica encontramos sinais fortes de variabilidade climática na escala de várias décadas (por exemplo, os anos 40/50 eram bem mais secos que os anos 80/90 na Bacia do Prata). Existem outros fenômenos climáticos, associados ao acoplamento entre oceanos e atmosfera, que alteram a temperatura da superfície do mar no Oceano Atlântico tropical e que exercem importante controle sobre o regime climático no Nordeste brasileiro. Todos esses fenômenos são naturais e passam por ciclos quase-periódicos por algum tempo, eventualmente desaparecem e voltam a ter influência.
Eventos climáticos extremos são como acidentes aeronáuticos: não existe uma única causa. É uma sucessão de eventos que leva ao extremo climático. Inundações, por exemplo, geralmente ocorrem porque existem uma situação de grande escala, por exemplo, uma anomalia de temperatura da superfície do mar (pode ser um Nino/Nina ou equivalente), acoplado a um extremo da chamada variabilidade intrasazonal (oscilações quase periódicas com escala temporal da ordem de 20- 60 dias), e um evento sinótico (isto é , com escala de tempo da ordem de poucos dias).
Existem evidências observacionais de que a freqüência de ocorrência de eventos extremos esteja excedendo os limiares tipicamente associados à variabilidade natural do clima, principalmente nos últimos 10-15 anos. Portanto, procede a preocupação. O Painel Intergovernamental de Mudanças Clmáticas (IPCC) deixa bem claro que estamos começando a ver os efeitos do aquecimento global.

Tucci 2. Os modelos climáticos avançaram nos últimos anos de maneira impressionante, mas ainda são limitados para representar muitos processos, com erros importantes para pequenas antecedências como alguns dias. Como então esperar que possam ser precisos para determinar o clima do final do século?
Pedro: Um cientista recentemente colocou publicamente em dúvida a capacidade dos modelos climáticos em prever cenários para os próximos 100 anos pois a Meteorologia sequer é capaz de prever o tempo além de poucos dias. É preciso, em primeiro lugar, distinguir o que é tempo e o que é clima para esclarecer esta dúvida. Em termos matemáticos o “clima” é a integral do “tempo” (no sentido meteorológico) no tempo. Em outras palavras, o clima é media temporal do tempo (meteorológico) .
O fato de não podermos descrever o tempo em todos os detalhes nas previsões meteorológicas não implica que as propriedades médias da atmosfera não possam ser bem previstas. Em particular, é preciso lembrar que parte significativa da variabilidade climática é forçada para variações lentas da forçante solar (induzidas, por exemplo, por variações orbitais da Terra) e ou variações lentas dos oceanos (como os El Niños e La Ninas). Podemos descrever com razoável precisão, quais são os efeitos dos Ninos e Ninas no clima de várias regiões do globo. Mas ainda temos dificuldade em prever detalhes, como, por exemplo, uma chuva num determinado local no prazo de vários dias.
Por outro lado, a não linearidade do sistema climático implica em transferência de energia entre diferentes escalas temporais e espaciais. Em outras palavras: erros nas pequenas escalas podem efetivamente levar a erros nas escalas maiores. É exatamente por esta razão que continuamos a investir em pesquisas para aprimorar a descrição das menores escalas dos fenômenos atmosféricos. Não vai demorar muito para chegarmos os ponto de os modelos atmosféricos poderem descrever fenômenos na escala da nuvens convectivas (i.e., poucos km) no domínio global. Temos argumentos teóricos que nos indicam que esse é o caminho mais seguro para aperfeiçoar a modelagem climática.
Entretanto, não podemos esperar pelo aumento da capacidade de cálculo dos computadores (estima-se que vamos ter computadores com a capacidade desejável para simulações climáticas de alta resolução em 15-20 anos). Portanto, no momento temos que usar os modelos de baixa resolução e validá-los nas grandes escalas. Temos modelos com notável destreza na reprodução das características fundamentais do clima nas escalas maiores. Esses modelos podem não ter a capacidade desejada de simular as pequenas escalas. Mas ainda assim conseguem fazer um notável trabalho nas escalas maiores. Portanto, dada a incerteza dos modelos, temos que trabalhar com um grande conjunto de cenários produzidos por diferentes modelos. Isto é, temos que amostrar a incerteza nos modelos. O IPCC/2007 fez um notável trabalho nesta linha e fornece previsões probabilísticas. Portanto, reconhece-se a incerteza dos modelos. Temos que lidar com essa incerteza de forma absolutamente clara.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *