Entrevista com prof. Mario Mediondo

O prof. Eduardo Mario Mendiondo é engenheiro de Recursos Hídricos, UNL, Santa Fe, Argentina, 1991, MSc em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pelo IPH/UFRGS, 1995; Doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pelo IPH/UFRGS, 2001. Pós-doutorado no Center for Environmental Systems Research, Univ Kassel, Alemanha. Professor Doutor da Escola de Engenharia de São Carlos/USP. Atua em ecohidrologia urbana, gestão de riscos, planejamento estratégico e modelos de gestão de demanda hídrica

1. Tucci – Tanto a formação em Recursos Hídricos como Meio Ambiente são interdisciplinares e deveriam fazer parte da formação das áreas técnicas, como você vê a criação de cursos como Engenharia Sanitária, Ambiental e de Recursos Hídricos?

Mediondo – Alguns pensadores dizem que “perguntas simples levam às respostas longas que precisam de algum contexto para serem resumidas”. Essa pergunta tem aspectos históricos e que talvez se resumem em três momentos: um técnico-científico, um legal-normativo e acadêmico. Eles aconteceram parte em série e parte “em paralelo”, mas com um início claro no foco sanitarista. O primeiro momento (momento técnico científico) é marcado na década dos anos 70 e 80 com a forte presença de pesquisadores e professores brasileiros sendo qualificados em universidades estrangeiras e com novos enfoques para os recursos hídricos no Brasil. Nessa década nasceu a ABRH, como um processo natural graças à organização de talentos que visaram uma adaptação aos novos desafios de conhecimento. Se rever a ata de criação da ABRH cita-se a frase “…engenharia de recursos hídricos…”. Este processo desencadeou o segundo momento (legal-normativo) quando esse conhecimento se traduziu na criação de leis e normas. Na década de 1990 re-nascem as leis estaduais de gestão de recursos hídricos, com um formato diferentes às anteriores leis ou decretos, sendo o ano 1997 um marco em torno da sanção da Lei 9433/97. Nas duas últimas décadas seguintes, o Brasil continuou a ter avanços importantes e melhoria na sua legislação federal e dos estados. Mas o interessante que isto se dá COINCIDENTEMENTE durante um período de globalização de idéias e, sobretudo, de disciplinas. Os problemas passaram a ser de cunho interdisciplinar e com visão global, porém de ação local. Nessa década a Engenharia Ambiental toma destaque mas também cria-se o primeiro Curso de Engenharia Hídrica. Quando se chega ao século XXI, o próprio CONFEA/CREA reconhece as competências da engenharia ambiental. Um pouco depois, reconhece a Engenharia Hídrica. Um novo passo é a Lei de Saneamento (11.445/07), aguardada por muitos anos. Nela, é claro advertir que aspectos de abastecimento, esgotamento sanitário, drenagem pluvial e resíduos sólidos NAO são mais excludentes e sim complementares e integrados. Com o advento de instrumentos como o de cobrança pelo uso dos recursos hídricos, esse novo marco legal leva a uma reflexão natural da MISSÃO E VISÃO dos Cursos. Atualmente (2009) o MEC inicia uma consulta para reavaliar bases nacionais de Cursos. Se esta leitura incluirmos as vocações regionais de um país continental como Brasil, entende-se facilmente a grande quantidade de nomes e modalidades de Cursos. Sempre brinco que existem discussões em torno de temas de “iniciação”, por exemplo de drogas, do sexo, ou até da independência financeira. Mas a “hidroiniciação” em termos de Curso Profissionalizante para um jovem que procura uma vaga no mercado é um tema que fica bastante separado do jargão popular. Por que será?

2- Tucci – Na prática observa-se que um grande número de pessoas de diferentes formações (engenheiros, advogados, administradores, economistas, biólogos, geólogos, etc) que atuam em recursos hídricos nos comitês, agências e atividades inter-relacionadas de meio ambiente. Não é possível esperar que todas venham a fazer mestrado e doutorado no assunto. Qual seria a sua sugestão para a formação destas pessoas?

Mediondo – Uma moeda com duas faces. A primeira é o elemento comum básico: a bacia hidrográfica. A outra face é o ritmo de descentralização da gestão de recursos hídricos A linha do tempo indica que escalas regionais, cada vez menores, sejam objeto de conflito e, portanto, de procura de soluções com instrumentos de política atual em torno da bacia hidrográfica. Isto não têm limites quanto ao processo; de fato, perante as leis a descentralização da gestão é ilimitada. Nessa situação encontram-se os comitês e consórcios de bacias hidrográficas, hoje os primeiros experimentos legais na área e que até podem chegar a vários tipos de pessoas jurídicas facilitado por uma grande opção do código civil vigente na maioria dos países incluído Brasil. Mas uma moeda não tem só duas faces: também ela tem um perímetro que as liga. Esse perímetro é de pouca grossura, mas vital. Esse perímetro de moeda chama-se “formação/capacitação da sociedade para uma governança de recursos hídricos”. Uma sociedade qualquer não consegue chegar a bacia hidrográfica com um processo de descentralização de gestão se não encarar a formação como uma parte estratégica. No entanto, o perfil e formação de pessoas que integram os comitês e câmaras técnicas é hoje muito variado. Por um lado, isso é muito bom dado que reforça elementos da democracia e da inclusão em um país que ainda sofre resquícios de desigualdade de oportunidades. O comitê de bacia oferece uma nova oportunidade para discutir direitos e obrigações de cunho cidadão. Aí estamos assistindo ao nascimento dos “cidadãos da bacia hidrográfica” um termo que paradoxalmente as comunidades indígenas conheciam muito bem e agora nos estamos, na realidade, “redescobrindo”. Para alguns, isto é bobagem. Para outros, é sinal de sobrevivência e estratégia de longo prazo perante cenários de escassez iminentes. As pessoas estão se acostumando a que a “bacia hidrográfica” é o elemento comum. Eis a nova governança. Mas por outro lado, essa governança é muitas vezes tratada como “poder”, como “governo” ou como simplesmente “administração”. O comitê torna-se um local para discutir e, até, avaliar o poder de interesses setoriais, e como a velocidade de aparecimento de conflitos é maior que a oferta de capacitação de pessoas na área de recursos hídricos, esta governança pode se tornar peculiar se não houver formação e capacitação contínua. Muitos pensandores e participantes como representantes de comitês, agências e câmaras técnicas é que devem recuperar a MISSÃO e VISAO de “governança hidrossolidária”, isto é a formação de gestores que busquem objetivos comuns e soluções que real alcance participativo. Por isso é que os novos cursos, sobretudo das engenharias de recursos hídricos ou “hídricas” em geral, devem ser sensíveis a estes desafios para tornar profissionais que sirvam de “facilitadores” dessa “cidadania da bacia”. Mas se a demanda por soluções de problemas for maior que a oferta de profissionais qualificados, as sociedades aceitam ao menos investir em “Cursos Profissionalizantes” de recursos hídricos. Qual será o caminho que o Brasil terá nas próximas décadas? Acredito que ambos: continuar a formar bons quadros em recursos hídricos, com cursos mais longos, mas também oferecer opções de capacitações profissionalizantes para hidrometristas, operadores de barragens, fiscalizador de bacias, ou outros títulos que, embora alguns ainda não existam, podem servir para as demandas mais simples do futuro.

3- Tucci – Se você fosse orientar um aluno no início da sua formação que acha interessante atuar em Recursos Hídricos e Meio Ambiente, por onde deve começar, para daqui a cinco anos ter mercado, num mundo tão dinâmico? O que você acha que serão os desafios modernos?

Mediondo – O mundo sempre continuará a necessitar pessoas que ofereçam soluções a problemas cada vez mais complexos e em escalas que interfiram com nosso cotidiano. Isto tradicionalmente está ligado á área das engenharias, embora as áreas tecnológicas de química, biologia e física estão fazendo sua parte. Para saber oferecer soluções é importante ser treinado com problemas a resolver. Meu conselho é que esses futuros profissionais devam ser inovadores por natureza, flexíveis enquanto à aceitar várias opções de solução, inclusive vários pontos de vista dos cidadãos e clientes, mas que mantenham uma alta excelência técnica para otimizar os resultados dessas soluções. Isto significa que as duas máximas conhecidas do jargão como “correr atrás” e “aprender a se virar” continuarão a ser o grande diferencial do “engenheiro líder, de inovação e dinâmico” daquele “engenheiro calculista, extremamente normativo e parado no tempo”. Antes de qualquer disciplina, eu chamaria esse aluno e estabeleceria com ele algumas linhas primordiais que ele não poderá deixar de fazer em qualquer momento, sobretudo os mais difíceis. E essas duas máximas iriam junto com essas reflexões. O engenheiro de recursos hídricos e ambiente deve ter forte formação em matemáticas, química, física e biologia; mas deve ser aberto o suficiente para viver em um ambiente multicultural e, sobretudo, acreditar no seu trabalho bem feito. O engenheiro do futuro lê bastante, pratica sua teoria com a sociedade dinâmica, reflete bastante sobre este contato e se adapta de forma constante. Não saber se adaptar, porém mantendo a qualidade e profundidade técnica, é sinal de falta de visão de futuro.

4 – Tucci – Na sua visão qual o mercado de recursos hídricos e meio ambiente para um aluno que está próximo da sua formatura atualmente ?

Mediondo – O aluno é livre de optar qual estágio curricular e qual trabalho de graduação ou de conclusão de Curso fazer. Mas cuidado! Como a palavra “gestão” é uma necessidade, há uma falsa crença que para fazer gestão só se precisa conhecer leis e atender normas. Isso está errado e é um dos fatores que há cada vez mais uma preocupação para “blindar” administrações, do que praticar atitudes eficientes. Um episôdio interessante aconteceu quando tive que oferecer a disciplina de Gestão Ambiental no curso homônimo. O primeiro dia, quando falei da missão e visão de um engenheiro para fazer gestão ambiental que é uma forma de solucionar problemas complexos com dimensões econômicas, legais e sócio-ambientais, um dos alunos “sentiu” que haveria trabalhos e processos de cálculo e me perguntou: “Mas professor, eu entendi que para fazer gestão precisamos ter um bom discurso e conhecimento, e não precisamos das ferramentas técnicas de cálculo…”. Depois de um ano de trabalho, com base em resolver problemas complexos, multisetoriais e com muito texto novo, não necessariamente normativo, essa turma, e esse aluno, entenderam que “gestão não é somente um papo, e sim um conjunto de técnicas para resolver problemas, algo inerente do engenheiro…”. Portanto, eis uma gestão próativa direcionada para o mercado de engenheiros. Se houvesse uma supervisão da prática durante o Curso o aluno veria que esse “mercado” está nas suas mãos, muito mais próximo do que ele se imagina. Mas como há uma tradição de docente ou aluno aceitar que o mercado de recursos hídricos é um meio onde não há lugar para a inovação, para o empreendedorismo, muitos egressos não compreendem qual é o potencial de sua formação para um mundo cada vez mais “sedento” de soluções práticas, de ideias complementares e de projetos que visem a sustentabilidade. Um exemplo é que não há ou faltam especialistas em aconselhamento de formação de associações ou consórcios de usuários de bacia hidrográfica. Parece uma bobagem, mas mercado não acaba, só cresce e, por falta de interesse, só aparecem formações como contadores ou advogados que conhecem muito bem a área, porém não têm condições de avaliar “otimizações de um sistema”, “controle e recuperação”, “melhoria de eficiência de processos”, etc, temas de cunho exclusivo do engenheiro. Outro exemplo é que somos uma geração que primou por avaliar, aperfeiçoar e otimizar uma parte de nossos problemas que é a oferta por um recurso. E o que o mercado está precisando é expertos em otimização da demanda, por exemplo em produção mais limpa, sustentável, mas que dê lucros e solvência à empresa. A certificação de processos de ciclo de vida com água virtual e pegada ecohidrológica são buscados aos montes pelas empresas, e os profissionais que aparecem devem ser re-recrutados por elas para saber do que se trata. Isto é uma bofetada para os cursos que ainda estão pensando em grandes obras, grandes infraestruturas e descuidam que a elasticidade da demanda NAO é um conceito puramente econômico e sim um fundamento para melhor administração dos recursos, sobretudo os hídricos. Outro tema de futuro é que “balanço hídrico” só faz sentido quando forem incluídas as componentes de água virtual. Imagine que perante cenários de mudança de longo prazo, p.ex. clima, urbanização etc, existem limites fisiológicos e culturais que as pessõas só se acostumarão se houver uma mudança de hábitos, sobretudo da forma de consumo de bens e serviços. Um tema de real mercado é formar um engenheiro de recursos hídricos que tenha elementos para controlar e diminuir a pegada ecohidrológica do consumo. Brasil em 2009 terá um consumo interno de quase R$ 2 trilhões. Em 15 anos esse valor pode duplicar e até agora não há engenheiros treinados em como fazer isto mais eficiente, isto é fazer “pulos de eficiência” para obter os mesmos bens e serviços mas com um consumo cada vez menor e melhor.

5 – Tucci – Com a internet a quantidade de informações que chega é muito grande, as revistas com publicações científicas publicam o que era o conhecimento de 2 a 4 anos no passado, devido ao processo de seleção. Na sua opinião como estar atualizado, sem perder o foco?

Mediondo – Eu brinco que se a atual geração de alunos de pré-escola já discute ciclo hidrológico e balanço hídrico sustentável, quando eles chegarem ao “colegial” estarão fazendo otimização de componentes desse ciclo, até de uma maneira mais lúdica e simpática do que às vezes encontramos durante “trombadas verbais em reuniões de comitês de bacias”. E então, qual carreira optar para seguir em “recursos hídricos”? Um jovem universitário deve manter foco em problemas e clientes, sobretudo fazendo uma projeção simples de problemas que aumentarão e que demandarão novo pensamento, como também sobre a melhor tecnologia e sua evolução. Por um lado, a melhor forma de estar atualizado dos problemas é fazer estágios e trabalhos de graduAção com empresas e firmas da área; participar de associações, consórcios e comitês de bacia e suas câmaras técnicas também ajuda, só que o nível técnico é diferente. Por outro lado, não deve ter medo de discutir e refletir o por quê das limitações, problemas e erros que a sociedade cometeu no passado em torno dos recursos hídricos. Um exemplo disso é “refazer” uma leitura de história e política internacional e ver que a maioria das rivalidades, guerras, crescimentos e quedas de impérios e civilizações estavam de alguma maneira ligada a “esperteza” ou “ineficiência” de se adaptar a uma gestão eficiente, otimizada ou com governança participativa dos recursos hídricos. Nisso a internet pode ser de utilidade.

6 – TUCCI – Existe um permanente conflito entre desenvolvimento e sustentabilidade, onde o equilíbrio leva ao desenvolvimento sustentável. Como você analisa a situação brasileira atual? você é otimista ou pessimista?

Mediondo – Um bom administrador e tomador de decisão em recursos hídricos entende rápido, porque provavelmente assim foi na sua graduação, que “sustentabilidade”, “inovação” e “empreendedorismo” não estão nunca separadas e sim são pilares para uma boa governança hídrica. Um exemplo disto é que existem planos de bacia que já incluem nas metas aspectos de “neutralidade hídrica” a partir de possíveis mudanças culturais, econômicas e climáticas. Como as margens lucrativas são cada vez menores, a “eficiência” passa a ser um elemento vital. Isto é uma clara mensagem para aqueles profissionais que acreditam que as frases: “refletir erros”, “problematizar soluções”, “inovar e otimizar”, e “saber gerenciar” têm uma ordem lógica na formação. Os cenários 2025, 2050 e 2100 para América do Sul e especialmente para o Brasil indicam que o grande diferencial será a “gestão da demanda”. Uma boa notícia é que se aos cenários de oferta e demanda de cada Plano de Bacia Hidrográfica forem aplicadas algumas poucas e simples equações de otimização da demanda em torno da elasticidade de preços, qualquer aluno encontra que as curvas tornam-se cada vez mais inelásticas devido a que o recurso torna-se mais vital, e mais escasso. O resultado? É que é possível entender HOJE quanto poderá aumentar o preço pelo uso setorial de recursos hídricos nos próximos 20 ou 50 anos. Portanto, isto é um bom e pequeno exemplo de que a otimização da cobrança em função da gestão da demanda não é mera ilusão teórica, e sim uma realidade urgente que está chegando. Por isso, sou ainda otimista de pensar que o engenheiro de recursos hídricos do futuro se verá cada vez com mais opções de mercado e que terá boas lembranças de “facilitadores”, desses professores, que acreditaram nele quando deram mais trabalho para fazer, mais elementos para pensar. Cada um traz um diferencial e potencial para ser desenvolvido e que deve ser redescoberto todos os dias.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

3 Comments

  1. Rodrigo Lobato

    Essa entrevista com o Profº. Mário Mediondo demonstra a excelência dos profissionais em Recursos Hídricos que temos no Brasil, sendo bastante feliz com suas colocações e visões sobre o desenvolvimento dos jovens profissionais nesta área, principalmente aqueles que estão iniciando sua formação. Parabéns ao Profº Tucci por mais essa entrevista.

  2. cecilia

    oi,eu achei a entrevista muito interessante ,de verdade ,penso em fazer engenharia hidrica mas preciso d euma base para isso e gostaria de saber se pode me ajudar com alguns contatos e informações ,qualquer coisa meu e mail é cftolentino1@hotmail.com
    Desde já agradeço e repito que a entrevista foi extremamento inteligente e educativa
    Agradeço

  3. cecilia

    oi,eu achei a entrevista muito interessante ,de verdade ,penso em fazer engenharia hidrica mas preciso de uma base para isso e gostaria de saber se pode me ajudar com alguns contatos e informações ,qualquer coisa meu e mail é cftolentino1@hotmail.com
    Desde já agradeço e repito que a entrevista foi extremamento inteligente e educativa
    Agradeço

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