Entrevista com Monica Porto

A professora Monica é Engenheira Civil (EPUSP) e possui Doutorado em Engenharia Hidráulica (EPUSP). É professora Titular do Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola Politécnica da USP, Diretora-Presidente da Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica e Ex-Presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos. Tem uma grande atuação internacional com entidades como GWP Global Water Partnersship e Banco Mundial. Atua em ensino, pesquisa e consultoria nas áreas de gestão de recursos hídricos e qualidade da água em rios e reservatórios.

Tucci: Depois de 13 anos da legislação de recursos hídricos no Brasil, fez alguma diferença para a sociedade e meio ambiente?
Monica: Sim, muita diferença. O país hoje dispõe de um arranjo institucional e de instrumentos de gestão que têm se mostrado extremamente valiosos para garantir água para as populações e para o setor produtivo. Evoluiu na efetiva implantação do uso múltiplo das águas. Construiu instituições relevantes como a Agência Nacional de Águas, por exemplo, e avançou muito na aplicação de instrumentos de gestão, como a outorga de direito de uso de recursos hídricos. Como isso se reverte para a sociedade? A outorga, por exemplo, é a garantia assegurada do direito de uso, algo essencial para a sustentabilidade tanto do abastecimento como do setor produtivo. Nestes últimos anos o país começou a reformar completamente o setor e a importância desse recurso natural para o país está simbolizada na criação da ANA. Hoje temos uma agência integralmente dedicada ao disciplinamento do uso da água no Brasil, à promoção do uso racional, à construção de um completo sistema de informação em recursos hídricos. Temos, por exemplo, impactos diretos desses benefícios nos diversos programas que avançaram no país nos últimos anos, como as negociações em torno de outorgas importantes, as quais levaram os usuários a serem mais eficientes no uso da água, como o acesso público à informação, e muitos outros benefícios que agora começamos a perceber. É muito importante que todos nós do setor de recursos hídricos não percamos de vista que a gestão da água é um problema complexo, que estamos no processo de construção do sistema, e é normal que os resultados demorem em aparecer. Pela nossa falta de persistência, o risco de retrocesso pode ser expressivo, pois a tendência de retorno a um sistema centralizado, que pareça mais fácil, é tentadora. Concordo que seja difícil para o público leigo, e até para colegas do setor técnico, mas um pouco distantes da área, seja difícil perceber o avanço. Afinal, os rios continuam sujos, continua o desperdício em muitos setores, as áreas mais secas do Nordeste ainda são um fardo para a sofrida população local. Mas devemos persistir. Não podemos desistir. Os benefícios ainda se mostram maiores do que os custos.

Tucci: Como você considera que a Universidade Brasileira tem aproveitado os recursos de pesquisa disponíveis do CTHIDRO desde 2001?

Monica: O CT-HIDRO foi um dos maiores avanços que o setor de recursos hídricos alcançou nos últimos anos. A quantidade de dinheiro para ser investida no setor é de fazer inveja para muitos outros setores de pesquisa. Dá para fazer muito e avançar muito. Tenho visto projetos muito bons que foram financiados pelo CT-HIDRO. Foi também importante viabilizar um aumento no número de bolsas de estudo para programas de pós-graduação. No entanto, acho que poderíamos ter feito mais. A estratégia de investimento, as áreas a serem desenvolvidas e um plano de investimento de mais longo prazo não estão claros para a comunidade científica. Os investimentos têm sido feitos de forma mais pulverizada do que eu gostaria de ver. É melhor investir em menos linhas de projeto, menos instituições, mas de forma mais incisiva. É mais produtivo e se, devidamente esclarecido, o custo político deste tipo de decisão não é tão grande assim. É preciso também, com urgência, cobrar resultados mais efetivos dos nossos colegas da academia e, mais ainda, maior qualidade dos projetos financiados pelo CT-HIDRO. É essencial também que a burocracia que envolve todo o processo seja racionalizada, pois hoje ela drena parte significativa do esforço dos pesquisadores e até dos recursos financeiros. Outra dificuldade é que nem sempre o financiamento apóia a necessidade da instituição contemplada com o projeto. É preciso ouvir e respeitar o pesquisador. Se ele diz que precisa de pessoal para conduzir a pesquisa, não adianta cortar suas verbas para pagamento de pessoal e dar a ele verbas para equipamentos. Equipamentos funcionam com gente. Em outras instituições o problema é infra-estrutura. Enfim, acho que aqui a palavra de ordem é ouvir as necessidades das instituições e do pesquisador.

Tucci: As fundações universitárias têm sido questionadas nestes últimos meses. Este é ainda um mecanismo de dinamizar a pesquisa e desenvolvimento das universidades públicas?

Monica: Não tenho dúvida que as fundações universitárias são hoje parte essencial do nosso sistema de pesquisa, principalmente nas áreas de pesquisa aplicada. Elas têm sido responsáveis pela importante entrada de recursos privados nas áreas de pesquisa. Há alguns anos atrás, o setor privado no Brasil investia pouco em pesquisa e via nas universidades algo muito distante da sua realidade prática. O país e as instituições evoluíram muito. As universidades se abriram e o setor produtivo passou a perceber os benefícios de se aproximar da pesquisa com o fim de alcançar evolução tecnológica e aumento de produtividade. Sem as fundações de direito privado ligadas às universidades seria muito difícil canalizar os investimentos para tais fins. A possibilidade de compra de equipamentos, pagamento de equipes técnicas que apóiam as pesquisas, garantia das despesas de custeio das pesquisas, entre outras, são uma realidade e dão sustentabilidade a uma importante parte das pesquisas. Formamos alunos nesses projetos e beneficiamos a sociedade com inovação tecnológica. Há mau uso? Provavelmente em alguns poucos casos. O problema é que, infelizmente, só vemos na imprensa os maus exemplos, o que dá errado, o que é problemático. Todas as boas notícias, os avanços, os projetos de inovação, o pessoal bem formado, não é manchete de jornal. E pior, por conta disso, a burocracia em cima das fundações hoje é tão massiva, que aumenta enormemente o custo indireto das suas administrações, engolindo recursos que poderiam ser aplicados em desenvolvimento se o país investisse menos no controle do processo do que na qualidade do resultado.

Tucci: Quais os principais desafios na pesquisa de recursos hídricos para as próximas décadas? Quais as áreas de pesquisa que você recomendaria?

Monica: Temos ainda muito a desenvolver para implantar efetivamente o “bom” uso da água, considerado de forma muito ampla. Há áreas em que o país precisa de muita evolução, são necessários estudos e ampliação do conhecimento dos nossos sistemas. Começando pela minha área, temos muito a evoluir no conhecimento da qualidade da água dos nossos sistemas, melhores técnicas de monitoramento, melhores sistemas de gestão da qualidade da água, conhecimento da produção e controle de cargas difusas, entre outros. Estamos pouco preparados para situações críticas de escassez e enchentes. Planos de contingência envolvem, por exemplo, definição de estados hidrológicos de atenção, alerta e emergência, definição de ações a serem tomadas, arranjos institucionais para tais medidas de controle, entre outros. Precisamos evoluir na efetiva implantação dos instrumentos de gestão com melhores sistemas de outorga, melhorar a cobrança, evoluir muito nos sistemas de informação. Uso racional, integração entre usos da água e o comportamento dos ecossistemas, são outros temas. A lista é grande!

Tucci: Se você fosse convidada a orientar o que fazer para o futuro em recursos hídricos no Brasil para os próximos cinco anos, quais seriam suas recomendações?

Monica: Aterrissar a nave. Precisamos demonstrar através de bons exemplos concretos as vantagens da gestão adequada das águas. As questões de gestão ainda circulam mais nos meios técnico e acadêmico e menos junto aos setores produtivos e à população em geral. Do lado da gestão, algumas áreas são prioritárias, como a aplicação concreta dos instrumentos de gestão e os sistemas de informação. Do lado estrutural, o país precisa evoluir nos sistemas de gestão da demanda e na promoção do uso racional, como forma de reduzir o risco nas áreas super-exploradas. Mas talvez o aspecto mais importante seja trabalhar na interface de recursos hídricos e meio ambiente e na interface de recursos hídricos e saneamento para apressar, o máximo possível a recuperação dos corpos hídricos degradados. Para o setor de recursos hídricos, a recuperação da qualidade dos corpos hídricos representa, de fato, um aumento da disponibilidade hídrica. Este é um tema que tem mais aspectos de gestão do que inicialmente parece. É preciso ter estratégia para atacar o problema. Quais são as áreas prioritárias? Como fazer o investimento? Certamente não temos recursos disponíveis para investir a totalidade dos quase R$ 100 bilhões que são necessários para uniformizar a coleta e o tratamento. Esta estratégia pode e deve ser construída pelo setor de recursos hídricos. É o setor mais afetado pela poluição e mais beneficiado pela recuperação.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

One Comment

  1. MARIA DULCE DE SOUSA

    Mônica,

    Depois de 2 anos, longe do Alto Tietê e longe de tudo aquilo que eu mais amava de fazer, entrei em uma pesquisa sobre recursos hídricos e me deparei com esta entrevista sua, que por sinal está brilhante, como tudo aquilo que você defende.

    Senti muitas saudades e então estou te deixando este recado, Desejando que continue brilhado e defendendo os nosssos recursos hídricos.

    Um forte Abraço,

    Dulce

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