Energia e clima

Um dos principais assuntos no noticiário recente tem sido a discussão sobre os riscos de racionamento de energia, devido à falta de água nos reservatórios. O assunto possui vários elementos desconhecidos pela sociedade que estão interligados.
O sistema de produção de energia brasileiro possui cerca de 84 % de capacidade instalada de energia hídrica e o restante de térmicas (com vários combustíveis), A gestão do sistema procura maximizar a geração hídrica, pois o combustível é muito barato e minimizar a geração térmica onde o combustível é mais caro (petróleo, carvão, gás e nuclear). Nesta gestão, é utilizada a curva de aversão ao risco, ou seja, quando os reservatórios ficam abaixo de um determinado nível é necessário economizar água (única forma de armazenar energia em grande escala) e são acionadas as térmicas. Em 2001 a disponibilidade de térmicas era menor e a seca foi mais severa. Neste ano, até agora, a disponibilidade de térmicas é maior (apesar do aumento da demanda) e as chances de falta de oferta é menor, mas o país está crescendo em taxas altas com maior demanda de energia e a questão passa para o próximo verão em 2009.
Os riscos do futuro envolvem dois fatores estratégicos de longo prazo, além da ampliação da capacidade instalada:

•A variabilidade climática das últimas décadas mostra que desde o início de 1970 houve aumento da ordem de 30% na vazão dos rios da região Sudeste e Sul do Brasil. Portanto, para a mesma capacidade instalada é possível gerar uma energia média maior. Observa-se que a vazão dos rios possui correlação com indicadores oceânicos do Pacífico e alguns do Atlântico. Estes são resultados do ainda desconhecido funcionamento climático do globo (provavelmente com pequena influência da mudança climática). Alguns destes indicadores como PDO (Pacific Decadal Oscillation) indicam que existem períodos de 20 a 30 anos acima e abaixo da média. O período de 1970 a 2000 representaria uma fase quente, com maiores vazões, e estaríamos desde o início da década, numa fase mais fria, portanto diminuindo as vazões. Se esta freqüência de vazões menores retornar a valores próximos aos que se observou antes de 70, a disponibilidade de produção média de longo prazo poderia cair de forma importante, que teria que ser compensada por térmicas ou por outras hidrelétricas. Portanto, a grande incógnita é qual a efetiva produção média considerando estes patamares de variabilidade climática?
• Numa cascata de hidrelétricas existem 1 a 3 reservatórios com volume para garantir a produção e vários que possuem altura (já que a energia depende da vazão e do desnível de água). Como os primeiros inundam áreas maiores, têm maiores conflitos sócio-ambientais a serem resolvidos e potencial de menor demanda nos leilões, o que demoram a serem construídos. Ao longo do tempo a tendência é possuir capacidade instalada, mas menor o volume, o que faz com que o período crítico diminua e os riscos de falha aumentem.
Para atuar sobre estes problemas estruturais é necessário melhorar o conhecimento sobre a variabilidade climática e aprimorar a previsão integrada climática – hidrológica, para permitir mais informações na gestão do risco do sistema, além da diversificação da matriz energética.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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