Desafio crescente da energia no Brasil

A geração de energia elétrica brasileira utiliza cerca de 93% de energia hídrica e 7% térmica, variando de acordo com as condições do volume dos reservatórios brasileiros. Do total da capacidade instalada 75% é hídrica e 25% é térmica. Parte das Usinas térmicas fica desligada. São utilizadas como um seguro para períodos de redução do nível do reservatório equivalente (Reservatório equivalente é uma abstração do volume total de água existente nos reservatórios das hidrelétricas).

Um hidrelétrica possui uma capacidade instalada em MWh, mas geralmente a sua energia assegurada (Energia assegurada é a energia que uma hidrelétrica gera com 95% da curva permanência, considerada equivalente a uma térmica) é muito menor que a capacidade instalada devido a variabilidade das vazões de entrada e a capacidade do reservatório em regularizar as vazões naturais com o volume. A energia assegurada depende do volume do reservatório. Quanto menor o volume, menor será a energia assegurada. Atualmente o Brasil dispõe da ordem de 107 mil MW de capacidade instalada e demanda média próxima de 60 mil MW garantida pelo volume dos reservatórios.

Desde a década de 70 as vazões nas bacias do Sudeste, Centro – Oeste e Sul sofreram aumento de vazão devido a variabilidade climática, permitindo a geração de mais energia para a mesma capacidade instalada. No rio Paraná este aumento foi de 30%.
Atualmente são observados dois riscos potenciais em médio prazo de ocorrer racionamento e flutuação do preço da energia no mercado, gerando incerteza para a economia como um todo:

(a) As séries hidrológicas podem mudar de patamar e retornar a valores menores como o do período anterior a 70. Já se observam sinais desta tendência em alguns locais, mas é prematuro tirar conclusões. O que se observa é a tendência de mudança sazonal (variação entre os meses do ano) em vários locais do país, que pode mudar ano hidrológico. A redução das vazões reduziria a energia média e assegurada;

(b) Existe uma tendência marcante no país de construção de novas usinas a fio d´água (quase sem volume), reduzindo o indicador que relaciona Volume/capacidade instalada (mostrado em figura em edição anterior deste blog). Isto mostra que aumenta a vulnerabilidade da produção de energia hidrelétrica nos anos mais secos, reduzindo o período crítico projetado de 2,5 anos para menos de 1 ano. Esta condição será crítica é devido ao seguinte: (b.1) se houverem térmicas suficientes para atender esta condição, as mesmas poderão ser acionadas com frequência, aumentando o custo de energia; (b.2) se não houver capacidade suficiente de complementação o sistema entrará em colapso e o racionamento pode retornar. As causas principais da redução do indicador de volume são as seguintes: (b.3) não são leiloadas as usinas de regularização (volume maior) do lay-out energético devido a dificuldade de obter as licenças ambientais prévias pela inundação de áreas com reflexos no reassentamento, desapropriações e impactos ambientais; (b.4) também não existe interesse do empreendedor privado de trabalhar para este licenciamento devido ao grande ônus e o reduzido benefício, já que a Usina regulariza para as cascata e seu benefício econômico é mínimo. Portanto, a relação benefício x custo esta levando o mercado a buscar mais rentabilidade em outros empreendimentos.

Estes aspectos são estratégicos para o país, não somente setorialmente, mas para a economia como um todo, pois o colapso de abastecimento de energia é mais sério que qualquer custo adicional sobre o sistema. Esta avaliação não implica que o cenário crítico já chegou, mas na tendência atual de crescimento econômico anual e reduzido crescimento de volume de regularização do sistema, poderá levar a um colapso no futuro.
Para mitigar este problema são necessárias ações como:

(a) Investir na previsão de curto prazo e sazonal da afluência de reservatório. A primeira melhora a operação. Atualmente existe pouco interesse nesta melhora por parte do proprietário da Usina porque não aumenta o seu ganho. O faturamento é basedo no estduo da série histórica. Previsão sazonal de alguns meses no futuro permite o planejamento estratégico e a antecipação do problema;
(b) Analisar o comportamento da variabilidade climática de longo prazo das séries históricas para procurar identificar tendências para o futuro;
(c) Analisar se o seguro das térmicas é suficiente para atender as condições atuais e futuras da redução de volume das usinas hídricas;
(d) Desenvolver estudo estratégico nacional quanto a priorização de volumes, com compensações sociais e ambientais e alternativas energéticas.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

One Comment

  1. Edgar Trierweiler

    Professor Tucci
    Não ficou claro para mim o seguinte trecho: ” b.4) também não existe interesse do empreendedor privado de trabalhar para este licenciamento devido ao grande ônus e o reduzido benefício, já que a Usina regulariza para a cascata e seu benefício econômico é mínimo. Portanto, a relação benefício x custo esta levando o mercado a buscar mais rentabilidade em outros empreendimentos.”
    O que eu entendi é que a criação de uma usina de regularização, mais alta, com volume maior e mais cara não é tão vantajosa dentro da mesma cascata que a usinas a jusante sem grande regularização, pois estas, sendo menores e mais baratas se beneficiariam da usina que regulariza a cascata. Portanto os investidores apresentam menos interesse nessa usina.
    Estou certo?!

    Sim, o ônus de aprovar um empreendimento complicado é maior do que outro sem grande reservatório e o benefício econômico resultante não é compensatório se comparado com os outros na cascata.

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