Deficiência do monitoramento de qualidade da água

Atualmente no Brasil, o monitoramento de qualidade da água é realizado de forma deficiente devido a falta de medição da vazão junto com as medidas de concentrações de um rio. Mencionamos em várias matérias este problema e, neste texto vamos discutir esta problemática, já que venho observando isto em todos os projetos que tenho trabalhado e infelizmente não observo qualquer alteração ou melhoria nos últimos 20 anos!!!
A concentração de uma substância num corpo hídrico é medida geralmente em mg/L (miligrama por litro), portanto é uma proporção da mesma encontrada na água. Para termos o seu total temos que multiplicar pelo volume ou vazão. Multiplicando pela vazão, fornece o volume da substância que passa por uma seção de um rio por unidade de tempo. Se a vazão estiver em L/s (litros por segundo. A carga, que é vazão multiplicada pela concentração = Q.C será obtida em mg/s ou multiplicando 86.400 (numero de segundos do dia) e dividindo 1 milhão obtém-se em kg/dia (unidade usualmente utilizada).
Portanto, se ao medir o efluente de uma indústria ou de uma cidade que entra num rio medirmos somente a concentração não saberemos quanto de carga entra no rio. Da mesma forma, quando medimos num rio a concentração da substância (por exemplo, OD-Oxigênio Dissolvido, DBO- Demanda Bioquímica de Oxigênio, N- Nitrogênio total, O – fósforo total, etc) temos a proporção destas substâncias naquele momento no rio. Estes dados somente possuem validade para aquele instante, medem o impacto instantâneo sobre o rio, mas não permitem analisar as fontes de poluição sem a vazão, pois não temos a carga. O próprio CONAMA na resolução anterior a 357/2005 não considerava a vazão para definição das concentrações das classes, introduzindo depois (resolução acima) a vazão de referência, sem defini-la.
Considere um rio que recebe uma carga de DBO com 200 mg/L de concentração e 185,2 L/s de vazão (corresponde a aproximadamente a uma cidade de 100 mil habitantes). A concentração medida no rio é de 32 mg/L quando a vazão do rio estiver em 1000 L/s e 8 mg/L quando estiver em 5000 L/s. Medindo apenas a concentração teríamos o valor de 32 mg/L e 8 mg/L em datas diferentes sem conhecer as razões de sua variação.
Portanto, para entender as causas e atuar sobre as fontes de contaminação nos rios é necessário medir as vazões associadas às concentrações. Não é necessário medir em todas as seções, se as fontes são pontuais, como efluentes industriais ou domésticos, pois a sua condição crítica é a estiagem e a vazão tende a variar pouco ao longo do tempo, se aproximando de uma condição de regime de fluxo permanente. Existindo um local no rio com medidas de vazões, a concentração mesmo em outras seções, pode ser relacionada, como no perfil apresentado na figura abaixo para o rio dos Sinos. No caso abaixo, procurou-se a data das medidas de concentração dos postos de várias entidades que não possuíam vazão e com esta data obteve-se para o mesmo dia a vazão do posto que exista no rio. A figura mostra o perfil da curva simulada (modelo de qualidade da água) e a variação dos valores de concentração em cada posto com medições para o intervalo de vazão (adotou-se a vazão média do intervalo). Este perfil pode ser elaborado para vários intervalos de vazão e estabelecido uma relação entre concentração e vazão para cada seção. Lembre-se que este procedimento somente é válido para fontes de poluições pontuais.
Queremos demonstrar dois aspectos neste texto: (a) é possível recuperar as informações existentes de forma mais consistente desde que existam dados de vazão na vizinhança; (b) é necessário mudar a prática hoje existente no Brasil e principalmente a formação técnica dos profissionais que atuam na área. A principal culpa do que ocorre está na falta de conhecimento de quem ensinou estes profissionais, apesar de que a busca de melhorar o conhecimento não faz mal a ninguém!

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About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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