Curvas de intensidade de precipitação – Duração e frequência

Uma das relações mais utilizadas em hidrologia para medir as chuvas máximas de um ponto numa bacia hidrográfica é a chama curva IDF (intensidade – duração – Frequência). Esta curva relaciona a intensidade máxima da chuva (mm/h) com a sua duração no tempo (minutos) e a sua probabilidade ou tempo de retorno (probabilidade em % ou anos).
Esta função é utilizada para estimar a erosão do solo, para drenagem de forma geral, determinar vazões de projeto para pequenas bacias e apoiar a determinação para bacias maiores. A influência que estas curvas possuem sobre a infraestrutura brasileira de estradas, ruas, condutos, canais e barragens são altas. Nos anos 80 a Austrália estimou que pequenas obras de infraestrutura representavam cerca de 3% do PIB anual e que a falta de dados produzia custos de prejuízos ou superestimativa de obras exigindo melhores informações para a determinação de vazão e precipitação em pequenas bacias.
No Brasil as IDF foram determinadas em 1958 para um grande número de cidades brasileiro pelo DNOS, na pessoa de Otto Pfastetter, representando um trabalho pioneiro. Em 1995 Otto Pfastetter foi a primeira pessoa a ser agraciada pelo prêmio da ABRH. Este trabalho é ainda utilizado em todo o Brasil, apesar das séries estarem desatualizadas, já que se passaram 53 anos!!. A pergunta que qualquer pessoa faz é porque estudo desta natureza que são fundamentais para a gestão da infraestrutura de água do país não é atualizado? Afinal a gestão de recursos hídricos é feita com informações para ser confiável? Será que estamos esquecendo o básico, ou seja que sem informação a Gestão não vai a lugar nenhum. Quanto custa ao país a falta de IDFs atualizadas?
Um dos aspectos fundamentais desta falta de atualização está relacionado com estacionalidade das séries hidrológicas. As últimas décadas em grande parte do Brasil aparentemente foram mais chuvosas, portanto não considerando estes dados a infraestrutura destas regiões não estaria subdimensionada ou as novas construções perpetuam este problema? Será que o efeito de aquecimento não estaria alterando estas tendências?
Quais seriam os entraves ao desenvolvimento de um trabalho abrangente deste tipo para a infraestrutura:
• Falta de percepção de necessidade dos decisores, influindo as entidades de governo como ANA, Secretaria de Recursos Hídricos e Instituto de Meteorologia que detém a maioria dos postos com registradores com séries longas;
• A falta de acesso aos dados do INMET conhecido por todos no setor. Apesar de serem coletados com recursos públicos não estão disponibilizados a população que pagou pela coleta com seus impostos. Geralmente estes dados cobrados, onerando pela segunda vez o contribuinte. No entanto, os dados hidrológicos são disponibilizados pela ANA na internet numa atitude mais adequada e honesta de uma entidade pública;
• Banco de dados limitados que armazenam apenas dados diários, enquanto que hidrologia de bacias inferiores a 2.000 km2 não se faz com dados diários, mas com dados de registradores.
Além da simples IDF de vários locais são necessários vários outros estudos relacionados com a distribuição temporal e espacial da precipitação que os serviços meteorológicos e hidrológicos costumam providenciar nos países. Espero que as agências realmente promovam a gestão, mas partindo de bases sólidas de informações.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

3 Comments

  1. Carlos

    Gostaria de saber se ja existem IDF criadas para o estado de Santa Catarina. Atualmente trabalho em um estudo na bacia do rio Tubarão. Ja foi modelada alguma equação idf para esta região?

    1. João Félix

      Carlos,

      Existe um trabalho do colega Nerilton Nerilo que, na sua dissertação de mestrado, elaborou várias equações para várias localidades em Santa Catarina. Inclusive, existe um livro que ele o prof. Péricles publicaram sobre o seu trabalho.
      Espero ter ajudado.

      João Félix

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