Condições climáticas dos eventos de chuva urbana

Pode ser considerado normal, 46 dias contínuos de dias de chuvas em São Paulo, muitos deles com chuvas intensas que se distribuem cada dia em uma região da cidade?
Em primeiro lugar o clima nunca foi regular, sempre houve períodos secos e chuvosos (sazonalidade) e sequência de anos secos e chuvosos (interanuidade). O que se observa é um aquecimento da temperatura nas últimas décadas (mudança ou variabilidade climática) que tem proporcionado condições mais propícias para chuvas convectivas intensas, que tem sido observado nestes dias.
A chuva convectiva possui grande intensidade e pequena duração e abrangência espacial limitada e ocorre pelo aquecimento do ar junto a superfície, que ficando mais leve sobe, esfria e precipita quando existe grande umidade. Isto é mais significativo num ano de El Nino, quando as massas do Pacífico trazem grande umidade devido a evaporação do mar que está mais quente (resultado da diminuição dos ventos). O Atlântico também está mais quente e os jatos de baixa altitude que entram no sentido da Amazônia e retornam para Sudeste com mais umidade também trazem mais umidade. Em resumo, condições locais de aquecimento e umidade circundante das massas de ar atualmente permitem chuvas convectivas freqüentes.
Este cenário é ainda mais crítico quando o aquecimento local é significativo devido às superfícies de concreto e asfalto que geram a ilha de calor nas cidades e, numa área de grandes proporções como São Paulo é ainda mais crítico. Existem pelo menos 5º C de diferença de temperatura do Centro para a Periferia mais verde numa área urbana como esta. Assim o efeito do aquecimento é ainda mais acelerado, permitindo freqüentes chuvas.
Estas chuvas são as mais críticas para a drenagem urbana, pois são bacias pequenas com escoamento rápido e representam os cenários de danos, pois possuem intensidade muito alta dentro da duração que estas bacias produzem a sua vazão máxima.
Sendo assim, um ano com condições climáticas de El Nino e aumento de temperatura do Atlântico, representa mais umidade nas massas de ar que somada às condições locais de urbanização são ingredientes de ocorrência de condições freqüentes destes processos.
Alguns modelos climáticos de previsão mostram uma tendência futura de diminuição da temperatura do Pacífico ao longo dos próximos meses até junho (figura abaixo). No entanto, outro modelo mostra que a temperatura vai ficar com 1º C acima da média até setembro/outubro. Previsão sazonal possui ainda grandes incertezas. Nas próximas semanas, retornaremos ao conteúdo dos modelos, discutindo o seu uso para previsão tanto para estiagens como inundações ou operação de sistemas.

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Previsão da anomalia (variação com relação a média) da SST (temperatura da superfície do mar) do EL NINO3 (média da temperatura entre as latitudes [5S,5N] e longitude [150W,90W], para os próximos meses obtidos em:
http://www.ecmwf.int/products/forecasts/d/charts/seasonal/forecast/seasonal_range_forecast/nino_plumes_public_s3/ (centro Europeu)

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previsão da anomalia para os próximos 9 meses de Centro Autraliano pelo Predictive Ocean Atmosphere Model for Australia (POAMA), obtido no site abaixo:
http://www.bom.gov.au/climate/coupled_model/poama.shtml

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

2 Comments

  1. Rogério Maestri

    Caro Tucci

    De longa data os hidrólogos sabem que as séries não são constantes, que simplesmente dentro do período de observação elas se comportam de maneiras mais ou menos estáveis.
    Se olharmos as variabilidades de fenômenos como o ENSO (El Niño Southern Oscillation), PDO (Pacific Decadal Oscillation), AMO (Atlantic Multidecadal Oscillation) bem como a atividade solar, veremos que estes fenômenos como um todo apresentam ciclos com várias harmônicas.
    O El Niño perece ser uma espécie de “l’enfant terrible” desses grandes fenômenos meteorológicos, ele se manifesta intensamente com vigor e ciclos curtos sem pedir autorização para qualquer adulto, como era de se esperar.
    Porém se olharmos atrás deste menino veremos a mão de seus progenitores, veremos a oscilação decadal do pacífico lhe dando uma cobertura como uma boa mãe. Algumas vezes, como todo bom “l’enfant terrible” o menino fala quando não era devido, ou se cala no momento que tinha que falar, tudo dentro da lógica das crianças, na maior parte do tempo se comporta como esperamos, mas algumas vezes…
    Assim como temos a mãe desta criança, temos a o avô todo poderoso que dita em função de seus ciclos o clima de toda a Terra. Este avô, como já deves estar pensando, é o sol, com todas as suas características de longa duração que é quase uma incógnita para nós que não conhecemos as travessuras deste ancião na sua juventude.
    Como o que conhecemos bem são as travessuras do nosso menino, detectamos dois ou três ciclos da mãe do menino, e pouco se sabe da vida pregressa do avô (manchas solares são um índice muito fraco), sabemos somente algumas harmônicas dos nossos registros. Se não sabemos como se comportam os ciclos maiores (só uma noção aproximada dos períodos glaciais e interglaciais, com erros de alguns milhares de anos) ficamos limitados a esperar maiores conhecimentos para prever o futuro.
    Estou insistindo neste ponto, pois vi que no teu texto começas a falar de modelos de previsão, modelos estes que não estão prevendo nada nos últimos treze anos (1986 -2009), e acho (neste ponto coloco um acho!) que a falha está simplesmente no desconhecimento e ignorância dos grandes ciclos. Os meteorologistas atribuem tudo ao El Niño, como este fosse um ET desvinculado de tudo e aparecesse por ordem divina. O El Niño tem uma origem, se não sabemos é outro problema, mas temos simplesmente não utilizá-lo como uma assombração que aparece por vontade divina.

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