Como abordar as inundações em Santa Catarina?

O cenário desolado das inundações em Santa Catarina nos últimos dias ficou marcado para toda a população brasileira, da mesma forma que a solidariedade. Um dos aspectos importantes que observei nesta semana em diferentes meios de comunicação, jornais, revistas e televisão, com raras exceções é o grande desconhecimento sobre assunto. Isto é preocupante, pois se os dirigentes e gestores públicos tiverem também este desconhecimento, este tipo de problema tenderá a ser mais grave no futuro.
Por exemplo, a reportagem da revista Época, mostra uma boa documentação visual, mas uma abordagem que se baseou em conhecimento desatualizado sobre a área e sobre o problema. Muitos profissionais possuem uma abordagem qualitativa do problema que leva a interpretações errôneas. Veja os exemplos abaixo:
O clima mudou? : Blumenau possui a maior série de marcas de inundações conhecidas no Brasil, iniciando em 1852. Os valores das marcas e da série contínua são apresentados na figura abaixo. A série com dados diários iniciou em 1935. A maior cota ocorreu em 1880 com 17,10 m (referência da régua de Blumenau). O nível no qual inicia a inundação é de 9,00 m e o nível máximo da última enchente foi da ordem de 11,40 m.
Quanto a duração, o relato histórico publicado no Diário Catarinense sobre Hermann Blumenau em 1855 mostra que o clima de região não é uma surpresa:
“Cheguei em julho no Desterro (atual Florianópolis) e em vez de uma viagem de seis dias, em tempos regulares, gastei um mês inteiro para chegar a esta colônia (atual Blumeau), sempre retido em caminho por chuvas e águas de monte. Este mau tempo continuou até meados de dezembro, havendo uma vez onze dias consecutivos, que não apareceu nem um só raio de sol.”
Portanto, eventos com níveis muito maiores que os atuais e a duração também não é novidade.
O desmatamento? o desmatamento e a retirada da cobertura vegetal: Este tipo de efeito antrópico permite acelerar processos de escorregamentos, mas não é a causa principal da referida enchente, já que muitas áreas com vegetação escorregaram e mataram pessoas da mesma forma. A causa principal foi o período longo de chuvas e o peso da água e solo sobre encostas. Sobre o escoamento, o efeito do desmatamento é maior sobre chuvas freqüentes (baixa magnitude e duração), com período seco antecedente. Neste evento ocorreu justamente o contrário, o solo já não tinha mais capacidade de infiltração e as perdas de interceptação não existiam, portanto o efeito do desmatamento no escoamento em cheias de grande volume é insignificante.
Na realidade pouco poderia ser realizado para alterar as condições de escoamento na bacia e independente dos efeitos antrópicos os resultados seriam semelhantes quanto aos níveis de escoamento.
Impermeabilização do solo? Neste caso, o efeito foi mínimo, pois nas bacias envolvidas a área impermeável era insignificante.
E as soluções? Foram propostos: recuperação da mata, diques em Blumenau e retificação do rio Itajaí. A recuperação da mata poderia ajudar em algumas encostas onde a vegetação tivesse o efeito de reter o escorregamento, mas não em todas as áreas devido ao solo e a quantidade de água. O uso de diques em Blumenau é inviável, devido ao grande desnível topográfico e ao nível máximo das inundações. Um dique na cidade para proteger o centro deveria ter no mínimo 9,50 m. Não é possível construir um dique com altura maior que 6,00 m, pois é muito arriscado, quando ele vier a romper (o que deverá ocorrer para uma cheia superior a de projeto). Além disso, duvido que a população de Blumenau deseje conviver com uma parede deste porte. A retificação do rio Itajaí-Açu seria um desastre para a cidade de Itajaí, pois todas as pequenas enchentes passariam a atingir a cidade, já que o controle do escoamento é realizado a jusante pelo mar e as vazões chegariam rapidamente a costa e se acomodaria junto a cidade, sem inundar o vale, o que atualmente ocorre nas inundações freqüentes onde a cidade não é atingida. O vale funciona como um reservatório de amortecimento para a cidade de Itajaí.
Os reservatórios que existem ou que poderiam ser construídos dificilmente reduziriam esta cheia, apenas as de pequeno volume e rápidas, que nem sempre ocorrem no vale.
O que poderia ser feito? Na realidade, em vales de inundação como este, a solução passa pelo zoneamento das áreas de inundações e de risco de encostas, proteção de encostas quando é economicamente viável, drenagem dos taludes e de sua afluência. O problema desta solução é que é politicamente difícil de ser implantada, porque ao contrário de trazer obras o Prefeito terá que redirecionar a cidade para áreas seguras.
A solução de menor custo em inundações ribeirinhas naturais é de não ocupar as áreas de risco. A lição para todos que ocupam áreas de risco é que um dia a natureza cobra o seu preço!

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About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

2 Comments

  1. Paulo Dutra

    Vendo as imagens de Santa Catarina na TV, de imediato a lembrança das enchentes/tragédias ocorridas em 1965 e 1975, em Recife. Em 1775, depois do terremoto que destruiu Lisboa e abalou a Europa, com mais de 90.000 perdas humanas, o filósofo Voltaire, indignado com os religiosos que disseram que tudo aquilo fora uma merecida punição de Deus, escreveu um poema que indagava/duvidava da bondade e da onipotência de Deus. “Como a bondade de Deus permitiu tragédia tão lancinante?” Em carta ao Voltaire, o também filósofo Rosseau pediu que não culpassem a natureza nem a Deus pelos efeitos do terremoto. Disse mais:”que culpa tinha a Providência Divina se os lisboetas decidiram ao longo dos tempos construir 20.000 casas, algumas de seis ou sete andares, e arranjarem-se assim, todos amontoados nas margens do Rio Tejo?” Na Região Metropolitana do Recife existem muitos locais de pessoas amontoadas, concentração de populações em áreas exíguas. A infra-estrutura urbana bastante deficiente. Quase inexistente. O planejamento urbano formal não chega lá. Isso é muito grave. A maioria das pessoas ocupa morros, encostas e principalmente as margens dos rios, com influência da maré. As inundações são freqüentes, e o pior, desconhece os riscos a que estão sujeitos. Quando não acreditamos ou esquecemos dos desastres naturais eles retornam, e de maneira impiedosa. A pior enchente não é aquela que está para vir? Cito uma frase do Waldemar de Oliveira, que fez um esboço geológico da planície do Recife: “No Recife, o que não é água, já foi água, ou lembra água.”

    Eng. Paulo Dutra Dep. de Engenharia Civil-CTG-UFPE

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