Base de dados para gestão: bacias médias e pequenas

A essência de uma boa gestão é a disponibilidade de dados confiáveis para avaliar a disponibilidade hídrica no tempo e no espaço, as inundações, a qualidade da água os sedimentos, o planejamento e operação dos sistemas hídricos entre outros processos na gestão dos recursos hídricos.

A cobertura de dados hidrológicos brasileira é razoável para grandes bacias, mas para bacias médias e pequenas é muito deficiente. Para bacias menores que 3.000 km2 o número de postos é muito pequeno reduzindo a quase nada para bacias inferiores a 100 km2. Neste caso, bacias médias e pequenas são definidas com áreas menores iguais a 3.000 km2. Quando existem alguns postos pluviométricos ou fluviométricos existem apenas registros diários. Numa bacia deste porte o tempo de deslocamento do escoamento é inferior a um dia, portanto não é possível saber como ocorrem as inundações ou como variam estas vazões durante os eventos chuvosos. Um valor médio do dia observado por um único registro pode sub ou superestimar a vazão média e por consequência todas as vazões resultantes.

Os métodos ensinados em Hidrologia como a determinação de um Hidrograma Unitário, raramente podem ser usados for falta de dados observados para determiná-lo. Os métodos utilizados para determinação de cheias se baseiam em parâmetros de literatura. O sucesso do modelo SCS, que é tendencioso na sua concepção, é justamente porque não usa dados na determinação do hidrograma. O resultado da falta de dados é a incerteza que aumenta o custo para a sociedade do resultado final em projetos superestimados ou subestimados que resultam em prejuízos devido aos impactos das cheias. Mesmo depois de construídas as obras hidráulicas dificilmente são instaladas medições e não verificadas a segurança dos projetos.
No caso das vazões mínimas a vazão em pequenas bacias sem dados é obtida pela extrapolação da vazão de uma bacia grande com base na área de drenagem, principalmente para projetos de abastecimento de água e qualidade da água, que utiliza bacias pequenas, da ordem de 10 a 50 km2. A metodologia de extrapolação de vazão de uma bacia grande para uma pequena geralmente utiliza a vazão específica. Dividindo a vazão de uma bacia com dados ( >3.000 km2) pela sua área de drenagem obtemos a vazão específica em l/(s.km2). Multiplicando pela área da bacia pequena obtém-se a vazão da bacia pequena. O problema deste procedimento é admitir que a regularização natural da bacia grande é a mesma da bacia pequena. Existem vários fatores que não viabilizam este método como: (a ) a bacia maior tende a ter maior regularização natural para as mesmas condições geológica; (b) variabilidade dos aquíferos; (c) incerteza e precisão dos dados que varia com a magnitude numa seção.

A regionalização de variáveis hidrológicas que tem sido utilizado de forma geral, não é uma resposta a esta deficiência, já que se os dados são precários, a própria regionalização também será. Por exemplo, a curva de regressão de uma vazão com relação aos parâmetros da bacia como área, precipitação, entre outros nunca representa da ordem de 2 anos de dados.

Portanto a falta de dados representativos em bacias de diferentes dimensões aumenta a incertezas que podem gerar a outorga e disponibilidade hídrica que não existe ou a concessão de licença ambiental inadequada onde o rio pode possuir menor capacidade de diluição.
Os Planos de bacia devem contemplar uma complementação do monitoramento hidrológico, principalmente considerando os usos e impactos potenciais da bacia. O objetivo principal é de dar consistência maior a gestão dos recursos hídricos da bacia. Além disso, seria recomendável um plano nacional de melhoria das informações em bacias médias e menores.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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