Qual o significado de água virtual?

Um conceito recente, apresentado pelo prof. John Anthony Allan do King’s College de Londres, muda a forma como contabilizamos o consumo humano da água. A forma usual de contabilizar o consumo é o uso direto da água que é distribuído nas residências e utilizado para beber, limpeza e higiene pessoal, entre outros. Este consumo direto pode variar de 150L a 700L/dia/pessoa, dependendo de vários fatores. No Brasil, este consumo varia de 200L a 300L/dia/pessoa. Já nos Estados Unidos, chega aos 700L/dia/pessoa.

A água denominada de virtual é aquela que foi utilizada na elaboração dos produtos que utilizamos nas atividades da nossa vida. Ao consumir uma xícara de café, estamos usando 140 litros de água para plantar, produzir, empacotar e despachar o café, além da quantidade usada na mistura da sua produção final. Da mesma forma, quando utilizamos o carro e consumimos álcool ou gasolina, estamos consumindo água virtual que foi utilizada na produção dos combustíveis e do próprio automóvel. Esta forma de contabilizar a água indica que a água virtual nada mais é do que o consumo indireto que fazemos deste recurso.

De acordo com a nossa dieta, podemos influenciar o consumo de água virtual. Por exemplo, uma pessoa com uma dieta de sobrevivência utiliza 1000L/dia, com dieta vegetariana consome 2630L/dia e uma dieta baseada em carne pode chegar a 5000L/dia. Isto não significa que todos devemos passar a ser vegetarianos, mas é importante o balanço destes valores.
O consumo global médio, considerando a água virtual, é estimado em 3400L/dia/pessoa, com grande variação entre países. Um dos países de grande consumo é os EUA, com o dobro da média mundial de 6800L/dia/pessoa. O Brasil tem um valor próximo da média 3370L/dia/pessoa. Estes valores evidentemente são estimativas, que podem variar muito em função dos critérios utilizados, no entanto permitem uma avaliação global destes valores.
Na estimativa destes valores são utilizados três tipos de água (conceitual) “verde”, “azul” e “cinza”.

A verde é a água originada na chuva captada que evapora no processo. A azul é a água extraída dos rios e dos aqüíferos, enquanto que a cinza é a água poluída (reutilizada ou não).
A água tem sido vista como um importante recurso natural, mas sempre como uso local/regional, devido aos custos evidentes de transporte. Sabe-se que é impossível de exportar a água devido ao alto custo de transporte. No entanto, com esta concepção da água virtual, podemos observar que alguns países estão exportando água embutida nos produtos de exportação e outros importando, gerando um balanço de água virtual entre os países. Como o maior consumo de água ocorre na produção agrícola, é de se esperar que os países grandes importadores de “commodities” agrícolas sejam os maiores importadores de água e os grandes produtores, os exportadores. O Brasil é o sétimo maior exportador de água virtual com 186 milhões de m³/dia. Utilizando a mesma medida do barril de petróleo, seriam 1,16 bilhões de barris por dia. Na unidade dos hidrólogos seria 2.152 m³/s, que representa a vazão média de uma bacia da ordem de 100 mil km², na região sul e sudeste do Brasil.
Este é um tema importante a ser explorado no contexto econômico brasileiro, na média que o usuário da água ainda não atribuiu valor a este recurso natural. Como você acha que deveria ser a estratégia brasileira? Como introduzir a conservação e a eficiência na exportação deste recurso? Como poderia ficar a valoração da água embutida nos produtos no comércio exterior? São perguntas interessantes que necessitam reflexão.

Existe já uma extensa bibliografia sobre o assunto e o material acima foi obtido de fontes existentes na internet (procure no Google com o termo “virtual water”). Um dos artigos principais com esta contabilização é o seguinte:
Chapagain, A.K. and Hoekstra, A.Y. (2004) Water footprints of nations Value of Water Research Report Series, No.6, UNESCO-IHE.
 (Link para download)

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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