Hidrologia da proporcionalidade

As séries hidrológicas, ou valores de planejamento e projeto, são necessárias em bacias geralmente sem dados. Tenho avaliado e verificado vários estudos hidrológicos que utilizam de forma indiscriminada a proporcionalidade de área para determinar a vazão de uma bacia, em função de dados de outra bacia, sem qualquer justificativa técnica ou mesmo com justificativas pouco consistentes como, por exemplo, “fazem parte do mesmo regime hidrológico”.

As incertezas deste tipo de procedimento dependem de vários fatores e características entre as bacias com e sem dados. Foram destacados os seguintes:

  • Torna-se necessário examinar as características de similaridade de tipo e uso do solo, geologia, relevo e condições climáticas. Por exemplo, uma bacia com precipitação anual média de 1500 mm, ao transferir os dados para outra com precipitação de 1200 mm, produzirá vazão maior onde não existe. Da mesma forma, uma bacia com uma geologia e aquífero que regulariza mais, ao transferir para uma bacia como de cristalino (rocha), produzirá vazões mínimas maiores que o real.
  • Geralmente, a transferência de dados ocorre entre uma bacia com área de bacia muito grande (> 1000 km²) para uma pequena (< 100 km²). O erro principal deste procedimento, mesmo que a geologia e as características físicas sejam semelhantes, é de que a bacia maior naturalmente tem maior capacidade de regularização que a bacia menor, gerando regularização natural onde não existe. Neste caso, ocorre superestimativa das vazões menores e subestimativa das vazões maiores.
  • Para uma bacia maior, as vazões máximas estão filtradas pelo amortecimento de cheia, já nas bacias menores isto não ocorre. Em termos específicos, ao transferir a vazão máxima de uma bacia maior para uma menor, é gerado amortecimento.

A regionalização de vazão veio justamente para permitir examinar as tendências hidrológicas regionais de diferentes bacias e permitir a transferência de vazão entre bacias com dados, bacias com dados limitados ou mesmo sem dados. A regionalização deve ser realizada de forma consistente e deve-se evitar o uso do mesmo na extrapolação de área de bacia, o que geraria sérios problemas. A seguir, alguns dos exemplos críticos:

  • Em alguns setores como o de PCH, utiliza–se o critério de correlacionar a vazão específica com a área da bacia e extrapolar este valor para áreas menores. Geralmente os resultados são desastrosos, gerando vazão média totalmente inconsistente. Esta prática deve ser evitada. O principal problema da extrapolação é que a vazão obtida geralmente é muito maior que a verdadeira e não é compatível com a chuva do local.
  • Devido à outorga e ao licenciamento ambiental, é comum o uso de proporcionalidade de áreas para determinar a vazão mínima Q90, Q95, entre outras.

Os valores da curva de permanência não possuem proporcionalidade linear entre bacias de diferentes tamanhos. Assim, os resultados obtidos transferem incertezas importantes aos resultados e nas licenças, que podem se tornar ônus aos empreendedores quando ocorrem as condições críticas.

A vazão é uma variável integradora de vários fatores e deve ser tratada de forma consistente numa bacia. A proporcionalidade de área pode ser usada, mas depende da variável e das características das bacias que justificam os valores.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

One Comment

  1. Francienne Gois Oliveira

    Olá Prof. Tucci, sou estudante de doutorado da Unesp de Botucatu e pretendo trabalhar com Regionalização de vazão em uma bacia de 107 km² que não possui dados fluviométricos, apenas pluviométricos. A regionalização será utilizada para analise do potencial hídrico para ver viabilidade da reativação de uma microcentral hidrelétrica desativada.
    Já adquiri os seguintes livros de sua autoria: Modelos Hidrológicos, Hidrologia Ciência e aplicação e Regionalização de vazões.
    Gostaria de saber se sabe de algum curso de capacitação para que possa desenvolver meu projeto.
    Agradeço a atenção
    Francienne Gois

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