Avaliação do uso da água (Artigo 4 de 4)

No artigo anterior determinou-se que a demanda total de água dentro de um ciclo sustentável é obtida pela soma da demanda direta, vazão virtual para desenvolvimento de produtos e vazão sustentável que o ambiente tem que usar para subsidiar a sociedade quando não ocorre o tratamento de efluentes.

A demanda direta, no Brasil, é obtida pela vazão consuntiva, que equivale a 20% da vazão consumida pela população, que é de 165,3 L/ha/dia (SNIS, 2014), ou seja, 33,1 L/h/dia. A vazão virtual usada em produtos é da ordem de 2.800 L/ha/dia, segundo dados internacionais.

O terceiro termo (vazão de subsídio) da equação apresentada no artigo anterior pode ser estimado com base na seguinte equação:

Qs = (1-b).0,8.Q.[Cb.(1-alfa.beta)-Cs]÷(Cs-Ci)

 

Onde b é a proporção de fossas (entre 0 e 1); estimou-se, com dados do Plano Nacional de Saneamento, em 16,7%, no Brasil. Q é a vazão de demanda média do Brasil, valor mencionado acima; alfa é a proporção de esgoto coletado e tratado (entre 0 e 1); beta o nível de tratamento (entre 0 e 1); Cb a concentração de esgoto in natura para o parâmetro usado; Cs é a concentração adotada para a classe do rio desejada, neste caso, classe 2; Ci a concentração para um rio natural.

Usando o DBO como parâmetro, os valores considerados são do SNIS, de coleta e tratamento (40,8%); beta o nível de tratamento igual a 80% (muito otimista para realidade brasileira); Cb = 300 mg/L; Cs = 5 mg/L e Ci = 2 mg/L.

Resulta para a vazão sustentável uma demanda de 7.239,4 L/h/dia, que somado aos valores anteriores, se chega à demanda total de 10,072 m³/dia/hab. Observa-se destes valores que a demanda sustentável é de 72% da demanda total. Para uma população de 200 milhões de habitantes, necessitamos de 2 bilhões de m³/dia (23.148m³/s) para o atendimento da população dentro de um ciclo de sustentabilidade. Nesta estimativa não foi considerado a contaminação das águas subterrâneas pelas fossas.

Estes números mostram que a demanda direta é insignificante perto da demanda para recuperar os rios pela contaminação dos efluentes e também perto da demanda usada para desenvolvimento de produtos consumidos por pessoa. Estes resultados mostram a magnitude do impacto da falta de tratamento de efluentes domésticos, que reduzem a disponibilidade dos rios por falta de qualidade da água.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *