Riscos na disponibilidade hídrica no Cantareira

O período recente de 2014 e parte de 2015 mostrou vazões muito abaixo da média na disponibilidade hídrica do sistema Cantareira. A vazão média de 2014 foi cerca de 22,4% da média de longo período, quando no histórico, o menor valor ocorrido tinha sido de 56% da média de longo período. Em 2015, apesar do início seco, a média ficou cerca de 54% da média de longo período. O período 2014 – 2015 é de fato excepcionalmente baixo e na maioria dos meses fica abaixo do intervalo de probabilidade de 95%.
Examinando a série de vazões (desde 1930), observa-se que este período está dentro de uma tendência de vazões baixas de longo prazo iniciada em 1991. Na figura abaixo pode-se observar os valores anuais (pela média) e a média móvel de cinco (linha vermelha). Observa-se uma redução sistemática da entrada de vazões no Cantareira. A vazão média de longo período é de 38,8 m³/s. Até 1990, esta vazão média era 41,21 m³/s e no período 1991-2015 ficou em 32,38 m³/s. Como a retirada de água era da ordem de 31 m³/s, o sistema não teria condições de sustentar esta retirada no período recente.
Um reservatório sem restrições para jusante geralmente pode sustentar uma regularização de 70% da média num clima como o Sudeste. Portanto, o sistema tinha condições de suportar os 31 m³/s para São Paulo até 1990. Depois disto, o sistema passou para um regime de vazões menores, até culminar com o ano crítico de 2014. Caso as séries afluentes tenham um regime semelhante ao dos últimos 24 anos, a capacidade de regularização pode ser da ordem de 22,6 m³/s. No entanto, este número é ainda uma especulação devido às seguintes incertezas:

  • Variabilidade climática de longo prazo: o regime de chuvas e comportamento climático futuro pode reproduzir o período recente ou retornar a períodos anteriores. Este tipo de comportamento de variabilidade interdecadal é observado em diferentes regiões do mundo que passam por períodos secos e úmidos com duração indefinida;
  • Uso da água à montante na bacia: pode existir a demanda à montante do sistema, que reduz a vazão para jusante. Este é um fator que pode ser avaliado com mais dados.
    Considerando a importância deste manancial e a demanda da Região Metropolitana de São Paulo, é importante verificar a demanda à montante (segundo aspecto) acima para descartá-lo ou incorporá-lo. Com base neste resultado, pode-se desenvolver cenário de oferta em função da tendência climática de longo prazo para a sua gestão de risco de oferta.

cantareira
Figura – Vazões adimensionais afluentes ao Cantareira e sua media móvel de 5 anos

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

2 Comments

  1. Perfeito amigo Tucci ; Devo acrescentar que em 1970 visitei o início das OBRAS do Sistema Cantareira e que a Bacia era toda reflorestada em 1973 foi inauguradaa PRIMEIRA ETAPA com 11 m3/s e depois em 1983 a SEGUNDA ETAPA cujo HORIZONTE FINAL DO PROJETO era de 22 m3/s …. Depois disto desmatamentos vários e IRRIGAÇÕES DE HORTAS E ETC… na Bacia devem ter alterado os APORTES ao Sistema ….. Algumas GAMBIARRAS podem ter sido feitas na área …..

    Ver minha PALESTRA NO clube de engenharia RJ : “” A CRISE DA ÁGUA E A CRISE DE PLANEJAMENTO “”

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