Como evitar riscos ao se realizar um projeto hídrico?

Para entender os riscos de um projeto hídrico, precisamos entender os conceitos de risco e incerteza. Risco é a probabilidade que o usuário está disposto a correr no dimensionamento de um projeto. Já incerteza é descrita como o erro na estimativa do risco devido a informações ruins, metodologia inadequada ou amostras insuficientes. Usualmente, o risco é expresso pela probabilidade de ocorrência, num ano qualquer, de um valor acima ou abaixo de um valor definido ou do tempo de retorno (em média é o tempo no qual um evento se repete em anos). Estes elementos básicos não são muito bem compreendidos quando se determina o risco de um projeto. Na maioria das vezes, os profissionais adotam um risco porque tem sido usado por outros, sem um julgamento do valor adequado. Esta é uma prática ruim, pois a definição do risco é a meta final de um projeto. Sendo assim, o projetista está negligenciando a sua escolha.

Parâmetros básicos na definição do risco

(a) Qual o período de vida útil do projeto em estudo? Qual o risco associado no período?

O uso do tempo de retorno permite conhecer o risco de um ano qualquer. Entretanto, não permite saber o risco da sua vida útil. Um projeto de controle de inundações com 100 anos de tempo de retorno tem a probabilidade de 26% de entrar em colapso nos próximos 30 anos. Esta é uma probabilidade alta se houver risco de morte. A escolha do tempo de retorno de projeto de uma ensecadeira é outro exemplo. Considerando que a construção de uma barragem deve durar 5 anos, ao usar o tempo de retorno de 25 anos, está sendo adotado um risco de 18,5% no período. Muito alto caso as consequências à jusante forem de vida humana.

(b) Quais as consequências econômicas, sociais e ambientais do projeto falhar? Estou disposto a correr este risco? Qual deve ser o risco que estou disposto a correr?

Construir uma casa numa área de inundação com risco de 5 anos de tempo de retorno tem 89% de chance de ser destruída em 10 anos. Não é sustentável reconstruir uma casa a cada 10 anos.
O risco de morrer num acidente aéreo tem probabilidade de 1 para 1,5 milhão para cada viagem. Para uma pessoa que viaja 30 viagens por ano durante 30 anos, o risco do período é de 0,06%, portanto é aceitável quando se refere à vida humana. Quando se adotam riscos altos, como por exemplo em drenagem urbana, a definição está mais relacionada com os prejuízos econômicos resultantes. Como os eventos mais frequentes são os problemáticos, a redução de prejuízo ocorre para tempos de retorno menores, aceitando-se eventos com frequência menor. Estima-se que com 10 anos de tempo de retorno, 85% dos prejuízos sejam cobertos por este tipo de projeto. Assim, ainda que o mesmo ocorra, a reposição dos prejuízos é inferior ao custo de implementar um projeto mais caro para tempos de retorno maiores.

(c) Planejar as condições de risco para reduzir os prejuízos quando os mesmos ocorrerem.

Os projetos de engenharia raramente abordam este cenário. Este é o tema de uma nova matéria.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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