Limitações na quantificação da água virtual

Água virtual é todo o consumo de água pelo homem direta e indiretamente nos produtos que consome ou utiliza. Usualmente estamos acostumados a avaliar em 250 l/(dia.pessoa) o consumo médio de água oferecido pelas companhias de abastecimento de água. Este conceito foi apresentado por Professor John Anthony Allan from King’s College London, fazendo com que recebe o prêmio da Água de Estocolmo em 2008. O conceito de água virtual tem mostrado que no processamento de vários produtos agrícolas e industriais consumimos grande quantidade de água, resultando no final num valor médio da ordem de 2.800 litros de água por dia e por pessoa. Este assunto foi destacado anteriormente neste blog pelo menos em duas matérias.
A estimativa realizada por Chapagain e Koekstra (2004) indica que os principais produtos que consumem água são: 1kg de trigo teriam 1.300 l de água; 1 kg de ovos 3.300 litros de água, 1 kg de arroz 3.400 litros de água e 1 kg de carne 15.500 litros de água. Para outros produtos como os industriais existem também valores indicativos de consumo.
Estes valores são impactantes e inicialmente tiveram o objetivo de produzir consciência na população sobre seus hábitos de consumo e a racionalização do uso da água. O maior usuário de água em nível mundial é agricultura, da mesma forma que no Brasil, correspondendo a uma proporção da ordem 60 a 70% do total consumido. No caso da referida publicação, destaca-se que a mesma introduz o consumo da água na energia elétrica por hidrelétricas, considerado anteriormente um usuário não-consuntivo (não modifica as vazões, apenas muda no tempo e no espaço). A justificativa pelo consumo da hidrelétrica é a introdução do reservatório que permitiria aumentar a redução de volume por evaporação. Dentro desta contabilidade o Brasil, como um grande produtor de commodities estaria exportando água agregado aos produtos.
Estas estimativas se baseiam em valores aproximados e globais e, portanto trazem uma grande incerteza relacionada com a mesma, principalmente no caso da agricultura e mesmo nas hidrelétricas, pois todas as quantificações são do total bruto retirado, sem considerar o seguinte:
• O retorno de água para o sistema de rios e bacias. Por exemplo, na irrigação, do total utilizado, uma parte é evaporada e outra retorna ao sistema natural, podendo variar de 15 a 50% do total irrigado. O retorno desta vazão pode ter alterações na sua qualidade. No consumo humano estima-se um retorno da ordem de 80%, mas se não houver tratamento o retorno pode ser de água poluída.
• Não calcula o uso efetivo, apenas o uso total. Isto significa que na plantação de um determinado produto agrícola haverá um consumo de água, mas se a plantação não existisse também haveria um consumo de água por evapotranspiração. Portanto, a contribuição efetiva é diferença de cenários. Normalmente na irrigação isto pode ser efetivamente calculado, dependendo da metodologia, mas em plantio de sequeiro isto não ocorre. Da mesma forma, no reservatório de uma hidrelétrica deve-se utilizar o balanço do mesmo para verificação do efetivo uso adicional de água pela sua existência. Em alguns casos o reservatório poderá ter um acréscimo de água, pois a água precipitada gera 100% de escoamento, diferente do cenário anterior que gera da ordem de 33%. Se a diferença entre evaporação e evapotranspiração não compensar este acréscimo, provavelmente o reservatório contribuirá com mais água. Isto pode ocorrer no Sudeste brasileiro onde o período chuvoso coincide com o período de maiores evaporações.
Desta forma, é importante reconhecer que na contabilidade da água virtual é necessário de um lado introduzir: o efetivo consumo e o efeito poluidor dos efluentes sobre os sistemas hídricos, que podem ser maiores que a redução física da quantidade. Desta forma, quando um país exporta um produto, também exporta água e seus impactos que não foram mitigados na produção dos mesmos. Os produtos exportados embutem um custo para o conjunto da sociedade quando mitigados ou para o ambiente na forma de subsídio ambiental.
Chapagain AK, Hoekstra AY (2004). “Water footprints of nations”. Value of Water Research Report Series (UNESCO-IHE) 6. http://www.waterfootprint.org/Reports/Report16Vol1.pdf.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

One Comment

  1. Outro ponto analisado pelos pesquisadores foi o impacto que a exportação de produtos agrícolas tem na pegada hídrica local e global, o que eles chamaram de exportação hídrica virtual. Assim, foi possível avaliar como a dependência de produtos importados pode impactar outros países, que não o local em que serão consumidos. Nesta categoria, de exportador de água virtual, o Brasil volta a ocupar a quarta posição, atrás das mesmas três potências econômicas. Em relação à pegada hídrica individual, os brasileiros ocupam hoje a 21ª posição, com gasto médio diário de 5,5 mil litros por dia. O número ainda é acima da média internacional, de 3,8 mil litros, mas está aquém dos gastos efetuados pelos norte-americanos, de 7,8 mil litros diários.

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