Eventos críticos e resiliência

A infraestrutura desenvolvida para a sociedade se baseia numa probabilidade ou risco de ocorrência de eventos naturais, tanto para disponibilidade hídrica como para eventos extremos de inundações, além de acidentes.
Como na vida de qualquer pessoa, assumimos um risco ao atravessar a rua, dirigir um carro, no tipo de alimentação, entre outros. Da mesma forma, quando é realizado um projeto de abastecimento de água, a disponibilidade hídrica de um manancial tem um risco de ser menor que a demanda da cidade ou quando ocupamos uma área com uma casa, existe um potencial risco de inundação maior ou menor de acordo com o local. Estas condições são inerentes a vários cenários da vida da população.
Nissam Taleb, no livro “A lógica do Cisne Negro”, analisa que planejamos dentro “médio cristão”, ou seja com base nas estatísticas frequentes de ocorrência dos processos e critica a falta de exame das condições que chama “extremo cristão”, que é o exame dos casos raros estatísticos, que são desprezados em vários setores, como no mercado financeiro.
As condições estatísticas extremas podem ser evitadas por custos muito altos, mas é possível planejar estes cenários para se obter maior “resiliência “ou resistência aos extremos. Na última matéria tratei da segurança hídrica, que é uma terminologia utilizada para desenvolver um planejamento no setor hídrico para aumentar esta resistência. Existem várias terminologias para retratar isto, como: mitigação, adaptação, resiliência, entre outros. Existem autores que dão definições diferenciadas para estes termos, mas no fundo o objetivo sempre é procurar reduzir a vulnerabilidade social, econômica e ambiental às condições extremas. Entenda-se aqui, como condições extremas, eventos de secas, acidentes, eventos de inundações, ou seja todos os eventos que ultrapassam as condições de projetos ou de desenvolvimento.
É comum ouvir a seguinte afirmação: Quando estes eventos ocorrem, nada se pode fazer. No entanto, esta não é uma atitude correta. Um projeto, mesmo que projetado para um risco muito baixo pode criar mecanismos de resiliência para que a vulnerabilidade seja baixa para os cenários de risco ainda menor. Para isto, deve-se considerar os seguintes fatores: (a) duração esperada dos eventos; (b) potenciais impactos e suas alternativas; (c) relevância do impacto as estas condições; (d) medidas preventivas e de emergência que reduzam os impactos.
Alguns exemplos deste tipo de cenário são:
• Para uma área de risco que será desenvolvida para ocupação ou que já estava ocupada é construído um dique de proteção contra inundação. Em função do custo é definido o tempo de retorno de 100 anos para a cota do dique. Este dique tem probabilidade de ser superado em 1% em qualquer ano, mas tem probabilidade de 40 % nos próximos 50 anos. Não é um risco trivial, mas construir um dique mais alto tem um custo muito alto, como o projeto pode aumentar a sua resiliência? Algumas medidas são: (a) Prever um local para romper que reduza o impacto da onda, aumentando o tempo de formação de brecha e amortecendo a onda; (b) prever a verticalização da ocupação do solo, espaçada por áreas verdes de uso comum, reduzindo o impacto nas moradias e usando os primeiros pisos para estacionamento; (c) sistema de alerta; (d) plano de emergência.
• Para uma cidade que se abastece de um rio pode entrar em seca e reduzir a disponibilidade (mesmo com reservatório) ou pode ocorrer um acidente que inviabiliza o uso da água. Neste caso, as alternativas poderiam ser: (a) Evitar que o sistema fique no limite da demanda x disponibilidade, aumentando a segurança hídrica da disponibilidade, incorporado no custo; (b) Planos de reuso para usos não nobres; (c) Plano de racionamento; (d) Aumento da eficiência e conservação; (e)Mananciais alternativos que podem ser acessados de forma emergencial; (f) proteção dos mananciais e rotas a acidentes; (g) Plano de redução de demanda; (h) plano de emergência. O maior custo é o da falta da disponibilidade.
Um outro aspecto importante é a avaliação permanente das tendências das séries de longo prazo, para estar atento a variações interdecadais de clima que podem comprometer a segurança hídrica. No Sul, parte do Sudeste e parte do Centro – Oeste brasileiro se observou depois de 1970 uma tendência de aumento de precipitação de vazão por pelo menos 30 anos, enquanto isto em parte do Centro – Oeste e Nordeste se observa uma tendência de redução da vazão desde 1991. A população tem pouca resiliência a eventos prolongados como este.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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