Conflitos de um inconformismo coletivo

Os conflitos que observamos nos últimos dias no Brasil têm deixado perplexos analistas de todo o mundo, que não conseguem identificar as razões principais. A única unanimidade é que não existe um motivo único, mas um somatório de insatisfações difusas. Não sou especialista no assunto, mas escrevo como um cidadão que dá a sua opinião e reação quanto a um cenário de inconformismo coletivo.
Algumas razões que aparecem em função das placas que se observam nas ruas são as seguintes:
• O excesso de corrupção sem punição. Em todo o mundo existe corrupção, mas no Brasil o problema não é corrupção é a falta de punição devido a incompetência somada de judiciário, sistema legal e processos mal elaborados. Uma placa cômica trágica dizia: “ vote em Ali Baba ele tinha somente 40 ladrões” ;
• A burocracia infernal que acha que poderá evitar a corrupção e penaliza o restante dos honestos do país. Isto na realidade tem amarrado o país (redução de produtividade). A imagem que fica é que cada cidadão é ladrão até que prove o contrário. O assédio burocrático com o péssimo atendimento inadequado das entidades públicas (principalmente as pessoas humildes). O Brasil está mais preocupado com a forma do que com o conteúdo e se perde na burocracia;
• Infraestrutura de transporte urbano, estradas, aeroportos, etc deficiente. Uma primeira explicação incompleta é que: O país mudou rapidamente e ascenderam a classe média mais de 50 milhões de pessoas na última década e a infraestrutura do país não acompanhou. É incompleta porque a infraestrutura era ruim antes, somente se agravou pressionando ainda mais a população de menor renda;
• Os gastos públicos para beneficiar grupos de interesses e obras sem nenhuma finalidade pública. Vide as obras da COPA, e financiamento subsidiado que custa R$ 27 bilhões por ano ao país (o dobro do da bolsa família).
• Baixa produtividade por limitada educação e saúde e infraestrutura de forma geral no país. O crescimento econômico depende essencialmente da produtividade e esta da educação do seu povo. O que esperar de um país que paga próximo do salário mínimo para o professor de primário e secundário. A maioria das crianças (mesmo em escolas privadas) não aprendeu matemática, física e química porque não existem professores.
Estes problemas não podem ser resolvidos fora da democracia, os movimentos têm sido apartidários porque os partidos políticos se mostraram incompetentes. Dentro do processo democrático é possível buscar soluções. O risco é que um aventureiro assuma este processo. Lembre-se de um ex-presidente deposto. É possível desenvolver uma agenda positiva e buscar partidos atuais ou novos que busquem esta agenda. Elias Canete menciona as massas abertas e fechadas. As massas abertas se dissipam com o tempo for falta de elementos e razão. As massas fechadas perduram.
Portanto, a minha visão de cidadão é que movimentos devem buscar metas de curto e longo prazo que sejam adotadas por partidos políticos como:
• Efetiva reforma tributária para diminuir a quantidade de impostos, simplificando e reduzindo os impostos de produtos essenciais como remédios, cesta básica, transporte público, entre outros.
• Reforma da Justiça para reduzir tantas etapas de recursos que os processos que nunca concluem, privilegiando os infratores, dando sensação de impunidade e aumentando os serviços para a classe jurídica (metade pensa que é Deus a outra metade tem certeza, como dizem na área);
• Reforma política para: (a) reduzir governo e aumentar o estado, para gestão de longo prazo e reduzir o loteamento de cargos com enfraquecimento das instituições públicas; (b) definir melhor o financiamento das campanhas; (c)melhorar a identificação da representatividade e a afinidade do eleitor com o eleito. Quem se lembra em quem votou na última eleição para deputado, vereador e mesmo senador?.
• Melhorar os serviços públicos e meios de cobrança dos mesmos pela sociedade. Hoje existe risco de o cidadão ser preso numa repartição pública por desacato, mas não existe nada que cobre do servidor o atendimento adequado;
• Desregulamentação da burocracia infernal que reduz a renda do país;
• Código de ética para partidos políticos com vigilância permanente;
• Plano de ampliação da infraestrutura em todos os níveis, não somente para a classe A e B como nos ônibus de bairros melhores;
• Plano de incentivos econômico e infraestrutura para escolas para melhorias do ensino básico e secundário com qualidade e competitividade;
• Plano Econômico estável com dirigentes com credibilidade para dar longevidade ao processo de desenvolvimento do país.
Será utopia, acho que não, mas pode demorar, enquanto isto todos perdem, mesmos os que se beneficiam.
Esta é a primeira vez que desvio da área de recursos hídricos. Mande seus comentários seja qual for, pois tive muita dúvida em escrever este texto. Prometo voltar a Recursos Hídricos na próxima vez.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

3 Comments

  1. William Schineider Rabelo

    Bem agora que estou fazendo meu intercâmbio fora, tive a oportunidade de conhecer a Europa em específico a Holanda, lugar que me apaixonei. Fico extremamente magoado com a realidade brasileira, sou estudante de Engenharia Civil pela PUCPR agora estou na Budapest University of Technology and Economics e tenho a ambição de fazer meu mestrado em Hydraulic Engineering and Water Management na TU Delft.

    Antes de sair do país pensava que pessoas que se formavam no Brasil e depois estudavam fora e moravam eram algo como “traidores” mas hoje vejo que não há nada de traidor querer uma vida tranquila e poder se desenvolver sem se matar com impostos, burocracia e etc.

    Gostaria de perguntar ao Sr. como você se sente como pesquisador no Brasil, é uma vida difícil? Gostaria de saber, pois ainda me resta uma pequena vontade de após meu doutorado voltar e fazer ciência no Brasil.

    Grande abraço

    William Schineider Rabelo

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