Um susto e duas longas viagens I

Desde abril não tenho mantido a frequência semanal das matérias deste blog e isto começou devido a um susto em meados do referido mês. Tive que colocar dois stents nas veias do coração depois de um exame de rotina, pois não tinha nenhum sintoma e não tinha nenhum indicativo de risco. É mais ou menos como se dois condutos estivessem assoreados e tivessem que ser aumentadas a capacidade de fluxo. Foram três semanas neste processo não muito agradável, mas que fiquei totalmente recuperado. Aproveitei para iniciar alguns outros projetos de livro, mas que terá algum tempo de maturação.
Na sequência tive duas longas viagens, onde a primeira foi para Bangladesh na metade de maio para um projeto do Banco Mundial, que terminei no final de maio e a segunda na sequência vai até o final da próxima semana pelo Oeste Americano de férias.
Em Bangladesh visitei Dhaka, a capital do país sobre a qual fiz uma matéria em semanas anteriores e depois Chittagong a segunda cidade do país que é um porto na baía de Bengali no Sudeste Asiático. Nestas duas cidades o meu trabalho é no sentido de acompanhar o início do Plano de Drenagem de Dhaka e discutir o termo de referência do Plano de Drenagem de Chittagong, buscando uma integração com o Plano de Esgoto Sanitário.
Bangladesh é um país pobre que se desmembrou do Pasquitão em 1971 e representava a parte leste do antigo Paquistão, já que entre o atual Pasquitão e Bangladesh está a Índia. É um país mulçumano onde atualmente estão se deslocando muitas empresas internacionais na busca de mão de obra barata, como aconteceu com a China, Tailândia, Taiwan, entre outros. As duas cidades possuem tráfego terrível, nunca vi nada parecido, pois tudo que se pode imaginar trafega nas ruas, bicicletas, jigaw (bicicletas ou motos que transportam pessoas), ônibus carros, pessoas, etc. Ninguém anda em linha reta e ficam o tempo todo com buzinando. Raramente o farol ou sinaleira é obedecido e em algumas ruas tem cancela. Do aeroporto de Chittagong ao Hotel levei 1 hora e meia para andar 20 km.
Dentro do âmbito do saneamento muitas cidades do Sudeste Asiático não possuem esgoto e passaram de cidades pequenas para grandes cidades rapidamente. O esgoto era e continua sendo lançado em fossas e latrinas. Como a carga aumentou muito com a densificação, sem a infraestrutura de saneamento, todo o esgoto vai para Drenagem. Dhaka está cercada por uma estrada que funciona como dique e uma rede de canais entupidos com lagoas internas totalmente poluídas. Como não existe controle ou planejamento adequado dos espaços a construção ocorre sobre ou ao lado dos canais junto aos esgotos. Quando chove ( > 2000 mm ) por ano no período das monções inunda internamente e muitos lugares do dique não possui bombeamento. Em Chittagong existe ainda além da precipitação interna que é maior, pois chega até a 3 000 mm, existe a maré (storm surge) que pode variar de vários metros e infelizmente tendem a ocorrer no mesmo evento.
Além de todos estes problemas a institucionalidade é muito fraca e fragmentada sem capacitação de profissionais e com ações desassociadas. Já que existe uma entidade para Planejamento urbano, outra para Implantação que acabam se cruzando, uma empresa de saneamento que atende somente 50% do abastecimento de água e não tem rede de esgoto. A drenagem é de canais entupidos.
Num cenário deste a pergunta óbvia seria, como planejar numa situação onde existe tudo por fazer? Nos últimos anos tenho trabalhado na América Latina, Àfrica e Oriente Médio e aprendi que quando não é possível fazer tudo, dê o primeiro passo, como assentar o primeiro tijolo e planeje para continuar construído o futuro, mas nunca desista. Neste caso, o primeiro passo é sempre a capacitação e institucionalidade.
Na semana próxima vou contar sobre a viagem pelo oeste americano que recomendo

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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