Problemas no saneamento (Artigo 1 de 2)

Você conhece alguma cidade de país em desenvolvimento onde os rios que cruzam a cidade não estejam contaminados? Este é um cenário que demonstra que o saneamento das cidades não atende os seus objetivos de tratar os efluentes e manter os rios limpos. Estes resultados que qualquer pessoa pode observar existem, apesar de investimentos públicos que ocorreram ao longo de décadas.
O cidadão deveria perguntar: qual é o problema? Investimentos insuficientes, recursos mal aplicados, corrupção? E também pode perguntar: como mudar?
Este artigo tem a intenção de iniciar a discussão visando alterar a apatia que a sociedade organizada se encontra de aceitar a poluição dos rios, os impactos na saúde, qualidade de vida e eliminação dos ambientes urbanos.
Nos países desenvolvidos, este processo de modificação da apatia ocorreu na década de 70 e o marco regulatório foi a lei chamada de Água Limpa, que tinha como princípio que “todos os efluentes devem ser tratados com a melhor tecnologia disponível, independentemente da capacidade de diluição dos rios”. Foram utilizados recursos maciços subsidiados e a maioria destes países teve sua cobertura de tratamento de esgoto a níveis em que a poluição se reduziu de forma significativa. Depois na década de 90, vieram medidas complementares sobre o controle da drenagem urbana para reduzir este tipo de impacto e uma visão ambiental de construir com mais sustentabilidade, preservando a infiltração da água e recuperando as cidades dentro de seu perfil urbanístico.
Nos países em desenvolvimento, enquanto as cidades eram menores, usou-se apenas fossas que enviam para o subsolo o tratamento do esgoto. No entanto, esta solução é para pequenas cargas (volume de esgoto). As cargas maiores vão para a rede de escoamento, chegando aos rios. Na medida em que as cidades cresciam, os rios foram aumentando a sua poluição. No início o investimento foi de entregar água segura e não tratar o esgoto, uma solução cômoda que com o passar do tempo contaminou as fontes de água próxima das cidades, gerando um ciclo de contaminação que compromete a própria água da cidade. A população passou a desconfiar do que existe na água e parte importante da população usa água mineral. A falta de água do período recente 2014-2015 foi de água de qualidade, não de quantidade.
O Brasil ao longo das últimas décadas nunca teve uma estratégia nacional e mesmo regional para atuar sobre o assunto. Alguns países como o Chile traçaram uma estratégia de investimentos nacional para cobrir o país com tratamento de esgoto e está chegando a mesma. Na Colômbia, a EPM em Medellin (empresa pública municipal) planejou a cobertura de esgoto da região metropolitana de Medellin (3,2 milhões) e completou recentemente. Esta empresa que atua também em gás, telefonia e energia faturou em 2013 US$ 2,45 bilhões, deu de lucro cerca de US$ 800 milhões e retornou ao município como lucro cerca de US$ 600 milhões.
Estes exemplos mostram que existem luz no fim do túnel e os principais problemas associados ao saneamento são institucionais, relacionados aos serviços, regulação e gestão (assunto para o próximo artigo).

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

3 Comments

  1. Mariana

    Prof Tucci,

    Sou engenheira civil formada pela UFMG e trabalho atualmente na Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Minas Gerais. Gostaria de saber se você possui um email para contato, pois tenho uma pequena dúvida relacionada ao hidrograma triangular.

    Grata.

    meu email tucci@rhama.net

  2. Alessandra Ayres de Oliveira

    Grande parte dos problemas destacados são gerados por aspectos ligados a falta de conhecimento do assunto por parte da população e também por falta de capacitação técnica dos profissionais envolvidos no setor de diferente áreas, o que resulta em soluções menos eficientes do ponto de vista econômico, ambiental e social. Como por exemplo a canalização de cursos d`água para fins de drenagem pluvial, uma prática constante no Brasil. A própria população quando possui um problema de inundação solicita a execução de canais que só repassam o problema para quem está a jusante, não se importando com o problema das áreas impermeáveis. Carecemos de profissionais com visão sistêmica para o planejamento e controle do sistema. Esses problemas resultam de uma visão distorcida que priorizam projetos localizados sem uma visão de bacia hidrográfica interligada as questões sociais e institucionais das cidades. Países menos desenvolvidos buscam soluções ineficazes e inviáveis enquanto os países de ” primeiro mundo” buscam prevenir os problemas de saneamento e drenagem urbana com medidas alinhadas ao desenvolvimento sustentável.

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