A urbanização e o aquecimento

A urbanização no Brasil tem seguido um modelo que combina limitado planejamento urbano e grande densidade habitacional com excesso de exploração imobiliária. Observa-se um processo acelerado na medida em que o preço do m² de terrenos e de novas construções chegam a mais de R$ 15.000/m². A tendência é de o planejamento urbano buscar maior densidade urbana para reduzir custo de transporte e tempo de deslocamento durante o dia. No entanto, esta tendência pode produzir efeitos indesejáveis na qualidade de vida da população quanto aos aspectos de água e meio ambiente, que são os seguintes:

  • Aumento das áreas impermeáveis e aumento das vazões na drenagem urbana com consequente inundação. Isto faz com que o custo por m² para controle destas inundações aumente de forma significativa em prejuízos ou em obras;
  • Aumento da demanda de água e esgoto e coleta de lixo e espaços reduzidos. Este efeito pode ser benéfico na medida em que aumenta a economia de escala, com redução do custo unitário, mas sobrecarrega os sistemas existentes;
  • Aumento da temperatura e deterioração da qualidade do ar, com evidente desconforto térmico e prejuízo na saúde da população.

No último dia 20 de março (2012), no caderno Metrópole do jornal Estado de São Paulo, foram publicados os resultados de uma pesquisa sobre a diferença de temperatura entre o centro de São Paulo e a periferia, onde existe mais vegetação com a Serra da Cantareira. A diferença de temperatura chega a 14º C. Além da altitude, o que diferencia estas áreas é a quantidade de área verde que absorve parte da radiação solar, evitando o efeito de ilha de calor. No entanto, mesmo em regiões com a mesma altitude, o que diferencia é principalmente as áreas verdes.
Certa vez, quando viajei para Assunção, na chegada pelo avião observei uma grande área verde na cidade, típica de uma cidade muito quente. Quando passei a caminhar e trafegar pela cidade, no entanto, verifiquei que as áreas verdes encontravam-se dentro das propriedades, e nas áreas públicas somente em menor escala. Assim como aconteceu em São Paulo e outras cidades brasileiras, a densificação tende a retirar todo o verde das propriedades para exploração econômica máxima do espaço e reduzir cada vez mais o verde existente. Isto é um passaporte para o “inferno”.
O que poderia ser feito para contrabalancear o aumento de custo de áreas verdes e a qualidade de vida? Minhas sugestões seriam as seguintes:

  • Desenvolver o conhecimento para buscar uma relação entre verticalização e preservação de espaço verde. Aumento da população na vertical, em detrimento de espaços verdes públicos, por exemplo;
  • Manutenção mínima de área verde por região de desenvolvimento, incluindo as áreas públicas e passeios. Estabelecer metas no planejamento de expansão tomando como base resultados de cidades com melhor diferença de temperatura e qualidade do ar;
  • Para as cidades já ocupadas, traçar um plano de arborização de áreas públicas e compra de espaço verde por troca de solo criado.
    Evidentemente que esta análise é um recorte de um problema mais complexo da infraestrutura urbana, mas importante colocar o assunto em discussão.

About Prof. PhD Carlos E. M. Tucci

Engenheiro civil, MSc, PhD, professor aposentado do IPH-UFRGS, sócio-fundador da Rhama Consultoria Ambiental. Autor de mais de 300 artigos científicos, livros, capítulos de livros. Experiência de mais de 40 anos na área, com atuação junto a empresas e entidades nacionais e internacionais como: Unesco, Banco Mundial, BID, ANEEL, ANA, Itaipu, entre outros. Premiado em 2011 pela International Association of Hydrological Sciences.

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